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Aldo Bonadei

Aldo Bonadei - Frutas

Frutas

técnica mista sobre papel
1967
23 x 32 cm
ass. sup. esq.
Aldo Bonadei - Frutas Aldo Bonadei - Composição Aldo Bonadei - Barcos em Ubatuba Aldo Bonadei - Paisagem com Casario Aldo Bonadei - Vaso de Flores Aldo Bonadei - Natureza Morta

Aldo Bonadei (São Paulo SP 1906 - idem 1974)

Pintor, designer, gravador, figurinista e professor.

Entre 1923 e 1928 Bonadei foi aluno de desenho do pintor Pedro Alexandrino (1856 - 1942), período em que também frequentou o ateliê do pintor Antonio Rocco (1880 - 1944). Em 1929, Bonadei torna-se amigo do professor de arte Amadeo Scavone. Viaja para a Itália, entre 1930 e 1931, e frequentou a Accademia di Belle Arti di Firenze [Academia de Belas Artes de Florença], onde tem aulas com o pintor Felice Carena (1879 - 1966) e seu assistente Ennio Pozzi (1893 - 1972), ambos ligados ao movimento novecento. Nesse período, dedica-se ao desenho da figura humana, principalmente ao nu.  Retorna a São Paulo no início da década de 1930 e participa ativamente do Grupo Santa Helena, da Família Artística Paulista - FAP e do Sindicato dos Artistas Plásticos. Integra de 1939 e 1941 o Grupo Cultura Musical, criado pelo psiquiatra Adolpho Jagle, que promove reuniões de artistas. Datam dessa época as suas primeiras experiências abstratas. Em 1949 leciona na Escola Livre de Artes Plásticas, primeira escola de arte moderna de São Paulo e participa do Grupo Teatro de Vanguarda. No ano seguinte, funda a Oficina de Arte - O. D. A., com Odetto Guersoni (1924 - 2007) e Bassano Vaccarini (1914 - 2002). No fim da década de 1950 atua como figurinista nas peças Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues (1912 - 1980), e Casamento Suspeitoso, de Ariano Suassuna (1927), ambas encenadas pela Companhia Nídia Lícia - Sérgio Cardoso. Nesse período, desenha alguns figurinos para dois filmes dirigidos por Walter Hugo Khoury (1929 - 2003), Fronteiras do Inferno (1958) e Na Garganta do Diabo (1959).

Comentário Crítico

Em 1915, aos nove anos, Aldo Bonadei executa seu primeiro trabalho a óleo e depois realiza pequenas pinturas autodidaticamente. Entre 1923 e 1928, estuda com Pedro Alexandrino (1856 - 1942). Freqüenta ainda o ateliê do pintor italiano Antonio Rocco (1880 - 1944) e o curso de desenho e artes no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Em 1929, torna-se amigo do professor Amadeo Scavone, com o qual mantém conversas quase diárias sobre arte. Segundo o artista, Scavone o ensina a estruturar mentalmente a composição em formas, linhas e valores de cor.

Bonadei continua a formação artística na Itália, em 1930. Freqüenta em Florença a Accademia di Belle Arti di Firenze, onde estuda com Felice Carena (1879 - 1966). Tem contato com a estética futurista e com o expressionismo da escola romana, que conta com artistas como Mario Mafai (1902 - 1965) e Corrado Cagli (1910 - 1976), e, principalmente, com o movimento Novecento (1922), ao qual Carena é ligado, marcado por uma pintura eclética. Regressa ao Brasil em 1931 e gradualmente adere às pesquisas da arte moderna. A partir de 1935, integra o Grupo Santa Helena, com Mario Zanini (1907 - 1971), Francisco Rebolo (1902 - 1980), Fulvio Pennacchi (1905 - 1992) e Alfredo Volpi (1896 - 1988), entre outros. Participa também das exposições da Família Artística Paulista - FAP e do Sindicato dos Artistas Plásticos. Pinta principalmente naturezas-mortas e paisagens urbanas e suburbanas de São Paulo, temas que se tornam constantes. Destaca-se em suas obras do período o diálogo constante com a obra de Paul Cézanne (1839 - 1906), no tratamento da cor e no uso da pincelada, como pode ser observado em Paisagem (1935) ou em Subúrbio (1937).

Na década de 1940, leciona pintura e trabalha como figurinista, cria modelos para vestidos e desenhos para bordados. Dessa atividade advém a idéia de aplicar sobre a tela costuras ou bordados, de maneira a determinar relevo e textura na composição. O período marca maior liberdade plástica do artista, que pinta quadros que buscam estabelecer relação entre música, ritmos e modulações da cor e pintura. Em seguida, sob o impacto da abstração, que começa a ser apresentada no país em importantes mostras, Bonadei interessa-se pelo cubismo e posteriormente busca a compreensão perceptiva do espaço por meio da teoria da Gestalt [Psicologia da Forma]. Pode-se observar em obras como Mulher Sentada (1948) e Gemini II (1952) a tensão entre o figurativo e o abstrato, que permanece em sua produção posterior.

Aldo Bonadei, para o crítico Jacob Klintowitz, destaca-se entre os pintores do Grupo Santa Helena por sua formação mais erudita. O interesse por diferentes áreas leva-o a desenvolver atividades em poesia, moda e teatro. O artista tem importante atuação, entre os anos 1930 e 1940, na consolidação da arte moderna paulista e, como aponta a estudiosa Lisbeth Rebollo, é um dos pioneiros no desenvolvimento da arte abstrata no Brasil.

Críticas

"(...) a pesquisa abstrata, iniciada em 1940 - a partir da fase das Impressões Musicais, quando o artista procura transferir para a tela as sensações provocadas pela música -, determina uma redefinição do conceito de linha, que passa a ser seu núcleo principal de interesse. Então a cor se neutraliza: temos fundos unitonais, geralmente cinzentos, ou uma pequena variação de cinza, que se misturam aos rosas, verdes e azuis. A linha, em compensação, é espessa, reforçada, e se exprime em contornos negros e brancos. A interpretação metafórica da música leva o artista a criar símbolos gráficos expressando emoções, raramente revestidos de cor (...). Essa fase o leva, também, a uma determinação da essencialidade do gesto no ato de traçar a linha.
No momento em que pesquisa o cubismo, de um modo geral volta-se ainda para a linha e o desenho. Na pesquisa cubista, que sucede imediatamente à fase das Impressões Musicais, dá-se a redefinição da organização dos planos, que passam a se interpenetrar e a se intersecionar, dinamizando-se no sentido da profundidade e tornando-se o elemento principal de sua busca. Como conseqüência, há uma reformulação na maneira de ver o objeto, que o artista procura captar em sua tridimensionalidade; ao mesmo tempo, dá-se a acentuação do sentido de volume e a busca de plasticidade do objeto, que leva a uma abstração do real. Em benefício da composição que o artista procura, o objeto pode até ser abandonado ou ficar meramente esboçado".
Lisbeth Rebollo Gonçalves
GONÇALVES, Lisbeth Ruth Rebollo. Aldo Bonadei: introdução ao percurso de um pintor. São Paulo: USP/FFLCH, 1977.

"Desde meados dos anos 30, a pintura de Bonadei, que passara pelo rigor do aprendizado acadêmico com o virtuose das naturezas-mortas, Pedro Alexandrino, estivera se dirigindo no sentido de uma crescente simplificação do espaço pictórico pelas mãos de Cézanne e de moderados cubismos. Equilibrara-se aos poucos, para manter-se como tal até o fim, na doce, mas controlada musicalidade dos acordes de emoção e razão, esquentando-se às vezes cromaticamente em lembranças de Matisse, outras vezes preferindo a via mais ascética de exercícios geométricos com fachadas ou tetos de casarios. Só por exceção, e ainda assim esquematizando-a (como no Interior de Ateliê, de 1942), ele deixou a figura humana habitar a sua obra".
Roberto Pontual
PONTUAL, Roberto. Entre dois séculos: arte brasileira do século XX na coleção Gilberto Chateaubriand. Prefácio Gilberto Chateaubriand; apresentação M. F. do Nascimento Brito. Rio de Janeiro: JB, 1987. p. 125.

"A arte de Bonadei se caracteriza por uma tensão constante entre o seu lirismo e a sua vontade de contenção, tanto no grafismo como na cor. Essa contradição pode ser encontrada em todas as suas faces, levando seu apego ao negro e aos tons pouco luminosos, e à solidez das suas composições. Os momentos mais fascinantes da pintura de Bonadei correspondem às quase-rupturas da contenção, como em algumas das naturezas-mortas admiráveis do fim da década de trinta e do começo da década de quarenta, em que a contradição se resolve numa exposição musical, ou quando o próprio traço negro adquire uma violência cruel, como na monumental natureza-morta de 1952.
(...)
Em meados da década de quarenta, Bonadei começou a passar por uma importante transformação psicológica e artística, que iniciaria uma nova abertura na sua criatividade, reduzindo gradualmente a violência da contradição entre o seu lirismo e a sua contenção de forma e cor.
(...)
A primeira fase da crise de metanóia de Bonadei foi marcada por uma nova abertura para a música, assinalada pelos seus desenhos abstratos tão originais das impressões musicais, que o tornaram um pioneiro da arte abstrata no Brasil, ainda na década de quarenta, uns dez anos antes do surto abstracionista informal dos anos cinquenta".
Mario Schenberg
SCHENBERG, Mario. Pensando a arte. Fotografia Romulo Fialdini. São Paulo: Nova Stella, 1988.

"Mas houve um Bonadei que pintava e bordava roupas para sobreviver. Houve um Bonadei italiano que pintou Florença, e outro de Moema, que pintava paisagens ao ar livre, e um outro mais, o Bonadei da Rua da Abolição. Houve também um Bonadei que pintava formas musicais. Houve ainda um outro, o pintor abstrato. Houve um Bonadei poeta e houve um Bonadei amante (este talvez fosse o mais secreto dos Bonadeis). Todos eles pungentes, fortes e generosos. (...) 

Não vás ainda o instante já foi 
Irás de vermelho
O tempo irá contigo
Depois será outro tempo. 
A cidade está toda cor-de-rosa
Cor da infância longínqua
Cidade imensa
Casa sobre casa
Sempre a mesma cor
Gás néon brinca
Sobre o azul
Inutilmente.

O poeta Bonadei que assim transmuta a cidade vista por olhos de criança é o mesmo que cria toda uma obra pela transfiguração da natureza, da cor, da luz, da forma, das composições cenográficas das naturezas-mortas, mutações caprichosas de um pintor que soube ordenar gestos e impulsos com a intenção de expressar sentimentos. Bonadei foi sobretudo um artista da cor, que a utilizou com sabedoria e liberdade, unindo tons e semitons, explorando sua harmonia, ao mesmo tempo que podia às vezes juntar cores primárias aliadas a um forte grafismo gestual ou um quase-contorno da cor transformada em luz".
Emanoel Araújo
ARAÚJO, Emanuel. Bonadei. In: BONADEI: 90 anos. São Paulo: Dan Galeria, 1996. p. 2-4.

Exposições