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Anita Malfatti

Anita Malfatti - Menina Sentada em Flor

Menina Sentada em Flor

óleo sobre tela
déc. 1930
45 x 40 cm
ass. inf. dir.
Anita Malfatti - Menina Sentada em Flor Anita Malfatti - Nú com Jarro II

Anita Malfatti (São Paulo SP 1889 - idem 1964)

Pintora, desenhista, gravadora, ilustradora e professora.

Anita Catarina Malfatti iniciou seu aprendizado artístico com a mãe, Bety Malfatti (1866 - 1952). Devido a uma atrofia congênita no braço e na mão direita, utiliza a esquerda para pintar. No ano de 1909, pinta algumas obras, entre elas a chamada Primeira Tela de Anita Malfatti. Reside na Alemanha entre 1910 e 1914, onde tem contato com a arte dos museus, freqüenta por um ano a Academia Imperial de Belas Artes, em Berlim, e posteriormente estuda com Fritz Burger-Mühlfeld (1867 - 1927), Lovis Corinth (1858 - 1925) e Ernst Bischoff-Culm. Nesse período também se dedica ao estudo da gravura. De 1915 a 1916 reside em Nova York e tem aulas com George Brant Bridgman (1864 - 1943), Dimitri Romanoffsky (s.d. - 1971) e Dodge, na Arts Students League of New York, e com Homer Boss (1882 - 1956), na Independent School of Art.

Sua primeira individual acontece em São Paulo, em 1914, no Mappin Stores, mas é a partir de 1917 que se torna conhecida quando em uma exposição protagonizada pela artista - em que também expunham artistas norte-americanos - recebe críticas de Monteiro Lobato (1882 - 1948) no artigo A Propósito da Exposição Malfatti, mais tarde transcrito em livro com o título Paranóia ou Mistificação? Em sua defesa, Oswald de Andrade (1890 - 1954) publica, em 1918, artigo no Jornal do Comércio.

Estuda pintura com Pedro Alexandrino (1856 - 1942) e com Georg Elpons (1865 - 1939) exercita-se no modelo nu. Em 1922, participa da Semana de Arte Moderna expondo 20 trabalhos, entre eles O Homem Amarelo (1915/1916) e integra, ao lado de Tarsila do Amaral (1886 - 1973), Mário de Andrade (1893 - 1945), Oswald de Andrade (1890 - 1954) e Menotti Del Pichia (1892 - 1988), o Grupo dos Cinco. No ano seguinte, recebe bolsa de estudo do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo e parte para Paris, onde é aluna de Maurice Denis (1870 - 1943), freqüenta cursos livres de arte e mantém contatos com Fernand Léger (1881 - 1955), Henri Matisse (1869 - 1954) e Tsugouharu Foujita (1886 - 1968).

Retorna ao Brasil em 1928 e leciona desenho e pintura no Mackenzie College, na Escola Normal Americana, na Associação Cívica Feminina e em seu ateliê. Na década de 1930, em São Paulo, integra a Sociedade Pró-Arte Moderna - SPAM, a Família Artística Paulista - FAP e participa do Salão Revolucionário. A primeira retrospectiva acontece em 1949, no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp. Em 1951, participa do 1º Salão Paulista de Arte Moderna e da 1ª Bienal Internacional de São Paulo.

Uma infância difícil

Estamos em Roma. A mulher, de meia idade, entra no consultório do hospital, levando ao colo sua filha de apenas três anos de idade, com o braço enfaixado e posto numa tipóia.
A mãe falava fluentemente o italiano, ainda que com um sotaque puxado para o inglês e, de sua conversa com o médico, ficamos sabendo que a menina se submetera a uma operação, na tentativa de corrigir um defeito congênito que lhe limitava os movimentos do braço e da mão, no lado direito.
Como esta era a última consulta, pois mãe e filha regressariam, em seguida, ao Brasil, de onde vieram para a cirurgia, o médico achou melhor expor o caso com toda a franqueza. O braço da menina não adquiriu os movimentos naturais, como se esperava, e assim o caso era irreversível, pelo que, achava conveniente que ela fosse treinada, desde logo, a valer-se da mão esquerda para todas as atividades.
Foi assim que a pequena Anita, destra por nascimento, tornou-se canhota pela necessidade, após intenso treinamento, que a ajudou a superar as dificuldades dessa condição.

Uma adolescente atribulada

Anita Malfatti não tinha um berço de ouro, mas também não passava por dificuldades. Seu pai, o italiano Samuel Malfatti, era engenheiro. Sua mãe, dona Elisabete, de nacionalidade americana, era pintora, desenhista, falava vários idiomas e tinha uma sólida cultura, cuidando pessoalmente da educação da filha.
Bem estruturada, Anita não encontrou maiores dificuldades em passar pelo exame de seleção do Mackenzie College, onde fez a Escola Normal e se formou professora, aos 19 anos.
Foi então que o destino lhe armou mais uma tragédia. Nem bem se formara e morre-lhe o pai, a quem tinha forte apego, e que era o arrimo da família.
A partir de então, a mãe passou a dar aulas de idiomas e de pintura, enquanto que, para complementar o orçamento doméstico, Anita começou também a trabalhar como professora.

Um socorro oportuno

O talento para a pintura, revelado pela moça, sensibilizou o tio e o padrinho. Juntos e, embora com sacrifício, conseguiram reunir uma soma em dinheiro, patrocinando a ela uma viagem de estudos à Alemanha.
Em setembro de 1910, Anita chegou a Berlim, com o período escolar em andamento, o que impossibilitava inscrever-se numa escola regular, pelo que, passou a tomar aulas particulares no ateliê de Fritz Burger. Já no início do ano seguinte, pôde matricular-se na Academia Real de Belas-Artes.
O mundo para ela era aquilo, até que, visitando uma exposição da Sounderbund (grupo de pesquisa), tomou contato com a arte dos rebeldes, desligados do academicismo ensinado nas escolas. Fascinada, aproximou-se do grupo e passou a ter aulas, primeiro com Lovis Corinth e depois com Bischoff-Culm, aprendendo pintura livre e a técnica da gravura em metal.

Nos Estados Unidos, a liberdade

Regressou ao Brasil em 1914 para, logo em seguida, viajar para os Estados Unidos, terra natal de sua mãe. Matriculou-se na Art Students League, uma associação desvinculada das academias, e, sob a orientação de Homer Boss, teve a liberdade de pintar o que desejasse, com toda a força própria de criação, sem quaisquer limitações estéticas.
Foi esse período que marcou a fase mais brilhante de sua criação, no qual Anita pintou O homem amarelo, Mulher de Cabelos Verdes, O Japonês, e vários outros quadros.
Foi a consagração de sua arte, no meio de insignes mestres e diante de um público capaz de interpretar a beleza e as emoções contidas em suas obras.
Anita estava preparada para voltar ao Brasil. Será que o Brasil estava preparado para recebê-la?

A exposição de 1917

Em 1916, com 27 anos, a pintora estava de volta ao Brasil, adulta e madura, sentindo-se suficientemente segura para expor sua nova concepção de arte, voltada para o Expressionismo.
Fiando-se nos comentários favoráveis de amigos e, particularmente, do crítico Nestor Rangel Pestana, assim como nas palavras de incentivo de modernistas como Di Cavalcanti e outros, Anita não hesitou em alocar um espaço nas dependências do Mappin Stores, na rua Líbero Badaró, onde, em 12 de dezembro de 1917, realizou uma única apresentacão de seus trabalhos.
Ninguém, nem mesmo o mais experiente freqüentador do mercado de arte, poderia prever o tiroteio que seria disparado contra a jovem pintora, vindo, não das hostes inimigas, mas das trincheiras amigas, justamente das mãos de um renovador, o escritor Monteiro Lobato (1882-1948).

Não viu e não gostou

Lobato fora, desde o início de sua carreira, um pré-modernista. Irritado com os padrões oficiais de educação e cultura, desvinculou-se das normas padronizadas da literatura, criando um estilo livre, avançado, valorizando a cultura nacional e discutindo temas voltados internamente para os problemas brasileiros.
Ao contrário do que se imagina, Monteiro Lobato sequer foi à exposição de Anita Malfatti. Não viu nada e não gostou do que não viu.
Mas, em artigo virulento, publicado no jornal O Estado de São Paulo, depois de criticar as extravagâncias de Picasso & Cia., o escritor assestou as baterias contra Anita, esperando que as balas ricocheteassem, atingindo seu alvo principal, que eram modernistas, companheiros da pintora.
Foi uma reação inesperada, que espantou até os que conheciam o destempero do escritor, e inexplicável, pois sua editora, havia pouco tempo, publicara um livro do modernista Oswald de Andrade, cuja capa fora desenhada justamente por Anita Malfatti.

Paranóia ou mistificação

Usando como título: Paranóia ou mistificação - A propósito da exposição Malfatti,, Lobato ataca as escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos de cultura excessiva... produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência e, depois, explica o título de sua catilinária:
Embora se dêm como novos, como precursores de uma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu como paranóia e mistificação.
De há muito que a estudam os psiquiatras, em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que, nos manicômios, essa arte é sincera, produto lógico dos cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses
e fora deles, nas exposições públicas zabumbadas pela imprensa partidária mas não absorvidas pelo público que compra, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo tudo mistificação pura.

Abalo e desorientação

Nem as palavras mas afáveis, ou menos agressivas, despejadas ao final do artigo, nem os elogios ao seu talento, colocados no início, poderiam desfazer tamanho estrago sobre a personalidade tímida e irresoluta de Anita, que caiu em forte depressão, vivendo um período de desorientação total e de descrença, um sentimento que carregou pelo resto da vida.
Sua primeira reação foi o abandono total à arte. Depois, passado um ano, dando uma guinada de 180 graus, foi tomar aulas de natureza-morta com o mestre Pedro Alexandrino Borges (1856-1942), ocasião em que conheceu Tarsila do Amaral, início de uma longa e proveitosa amizade.
Tarsila foi para a Europa e Anita passou a estudar com outro mestre conservador, Jorge Fischer Elpons (1865-1939), também especialista em naturezas-mortas.
Instada por amigos, participou da Semana de Arte Moderna de 1922 e, no ano seguinte, com uma bolsa de estudos, viajou a Paris, onde se encontrou com Tarsila, Oswald, Brecheret e Di Cavalcanti. De lá voltou, com a confiança recuperada, mas disposta a não se atirar em novas aventuras.
Sua arte, a partir daí, virou uma salada russa, logo notada pelos críticos: A Sra. Malfatti faz o viajante percorrer os séculos e os gêneros. É primitiva, clássica, e moderna avançada, faz retratos e naturezas-mortas.

Um mundo alienado

A exposição de 1917 se deu em momento errado, no local errado e com a pessoa errada. As críticas de Lobato não se dirigiam a ela mas aos modernistas, com quem o escritor tinha um ajuste de contas. Anita Malfatti se viu no meio do tiroteio e foi atingida mortalmente pelas balas perdidas.
Considerada por Pietro Maria Bardi como a maior pintora brasileira, ela jamais se recuperou do golpe sofrido. Como diria mais tarde Mário de Andrade: Ela fraquejou, sua mão, indecisa, se perdeu.
Já com idade madura, Anita mudou-se, com sua irmã Georgina, para uma chácara em Diadema (SP), onde morreu em 6 de novembro de 1964, alienada do mundo, cuidando do jardim e vivendo seus próprios devaneios. (Paulo Victorino).

Comentário crítico

Anita Malfatti inicia, bem jovem, o aprendizado em artes com a mãe, Bety Malfatti (1866 - 1952). Aos 20 anos, procura aperfeiçoar seus estudos na Europa. Graças à ajuda financeira de seu tio o engenheiro-arquiteto George Krug (1869 - 1919), consegue mudar-se para Alemanha e ingressar na Academia Imperial de Belas Artes de Berlim. Nessa cidade a artista ganha familiaridade com as coleções dos museus e das galerias. A Alemanha, em 1910, vive uma efervescência do expressionismo, que mobiliza a produção nacional e o debate em torno dela.

No primeiro ano, Anita toma contato com toda a agitação modernista, visitando as exposições com grande curiosidade, mas seus estudos são ainda bastante tradicionais. Na academia ela tem aulas de desenho, perspectiva e história da arte. O interesse pelas novas linguagens se amplia nas aulas particulares que tem com o professor Fritz Burger-Mühlfeld (1867 - 1927). Este artista, ligado ao pós-impressionismo alemão, lhe oferece possibilidades artísticas além das abordagens tradicionais. A presença do modernismo em sua formação é acentuada nos cursos com Lovis Corinth (1858 - 1925) e Ernst Bischoff-Culm. Em 1912, ao visitar a grande retrospectiva de arte moderna Sonderbund em Colônia, Anita já se familiarizara com a produção moderna. Nos retratos pintados pela artista no período transparecem o aprendizado das novas poéticas. O contorno clássico prevalece, mas as cores são usadas de modo expressivo, demonstram uma movimentação maior e mais contrastada que a do desenho. Embora não entrem em conflito com as formas, é perceptível que os elementos operam em dinâmicas distintas. Anita expõe esses quadros em sua primeira individual, em 1914, depois de retornar a São Paulo.

Em 1915, a artista parte para mais um período de estudos, desta vez nos Estados Unidos, onde tem aulas com Homer Boss (1882 - 1956) na Independent School of Art. A convivência com este professor americano e com o clima vanguardista da escola irá levar adiante o desenvolvimento da liberdade moderna cultivada na Alemanha. É aí que ela realiza seus trabalhos mais conhecidos, como O Farol (1915), Torso/Ritmo (1915/1916) e O Homem Amarelo (1915/1916). Nesses quadros, o desenho perde o compromisso com a verossimilhança clássica e ganha sentido mais interpretativo. Por vezes, o contorno grosso e sinuoso apresenta as figuras como uma massa pesada e volumosa. Em outros trabalhos, com o traço mais fechado, a cor é aplainada e compõe retratos e paisagens livres, pela articulação de superfícies em cores contrastantes.

No Brasil, em 1917, a artista associa essa liberdade de compor com formas à crítica nacionalista aos modelos importados de representação. Pinturas como Tropical (1917), originalmente intitulada Negra Baiana, e Caboclinha (1907) fazem parte desse esforço. Todas essas pinturas são reunidas em sua segunda individual: Exposição de Arte Moderna, em dezembro de 1917. A mostra tem repercussões decisivas para o seu trabalho. As reações são diversas. Se por um lado a exposição anima uma aproximação dos artistas e intelectuais que, mais tarde, realizariam em São Paulo a Semana de Arte Moderna de 1922, por outro ela vira alvo de uma reação violenta às linguagens modernas. As posições contrárias às vanguardas de origem européia, que têm como maior expoente Monteiro Lobato (1882 - 1948), consideram a exposição um desperdício do talento de Anita, que se entregava a estrangeirismos deslumbrados e mistificadores.

Tal reação, para alguns, irá abalar a confiança da artista, causando impacto violento em sua carreira; para outros, Anita já vinha oscilando esquemas formais mais realistas e soluções mais próximas do modernismo internacional. Depois da exposição de 1917, ela se aproxima da linguagem tradicional e faz aulas com o acadêmico Pedro Alexandrino (1856 - 1942). Seus trabalhos também se tornam mais realistas. Encorajada pelo grupo que iria realizar a Semana de Arte Moderna, como Menotti Del Pichia (1892 - 1988), Oswald de Andrade (1890 - 1954) e Mário de Andrade (1893 - 1945), Anita, por volta de 1921, interessa-se novamente pelas linguagens de vanguarda. Na Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922, a artista expõe novamente as telas mostradas em 1917 junto com novos trabalhos modernistas, sendo considerada por Sérgio Milliet (1898 - 1966) a maior artista da exposição.

Em 1923, Anita conquista finalmente a bolsa do Pensionato Artístico do Estado - que não havia conseguido com a exposição de 1914 - e segue para Paris, onde permanece por cinco anos. Em sua estada, ela toma distância de posições polêmicas da vanguarda. Pinta cenas de interiores como Interior de Mônaco e La Rentrée, e se aproxima do fauvismo e da simplicidade da pintura primitiva. A artista não nega o modernismo, mas evita o que ele tem de ruptura. Ao voltar para o Brasil, em 1928, interessa-se por temas regionalistas e se volta às formas tradicionais, como a pintura renascentista e a arte naïf.

O interesse por uma pintura mais fluente e descompromissada aproxima Anita do grupo de pintores da Família Artística Paulista - FAP. Ela se identifica com a busca de uma pintura espontânea e bem-feita, não presa a modelos consagrados nem perdida no desejo de inovação. Dos anos 40 em diante, a artista passa a pintar, cada vez mais, cenas da vida popular. Nos anos 50, o popular não é só tema, mas também passa a ser incorporado nas formas, influenciado pela arte não culta. Em 1963, um ano antes de falecer, realiza uma individual na Casa do Artista Plástico e ganha uma retrospectiva de seu trabalho na 7ª Bienal Internacional de São Paulo. É a última homenagem que recebe em vida.

Críticas

"Com Anita Malfatti desapareceu a personalidade historicamente mais importante do movimento modernista. Já é fato sabido, registrado em tantos pronunciamentos, que sua exposição de 1917 se constituiu na abertura de um apaixonado debate, até então desconhecido no país, entre as velhas concepções estéticas e as novas tendências, já vitoriosas nos grandes centros artísticos universais. Por isso, em outra oportunidade, chamamo-la de 'exposição insurrecional'. E foi sem dúvida a violência da reação, dos ataques que lhe foram então dirigidos, que determinou dialeticamente a necessidade da arregimentação dos elementos dispersos, partidários das idéias renovadoras, o que veio afinal desembocar na Semana de Arte Moderna, de 1922".
Paulo Mendes de Almeida
ALMEIDA, Paulo Mendes de. Mario de Andrade e a "sensitiva do Brasil". In:_______. De Anita ao museu. São Paulo: Perspectiva: Diâmetros Empreendimentos, 1976.  cap. 2, p. 17.  

"Essa artista possui um talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes através de uma obra torcida para má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Percebe-se de qualquer daqueles quadrinhos como a sua autora é independente, como é original, como é inventiva, em alto grau possui um sem-número de qualidades inatas e adquiridas das mais fecundas para construir uma sólida individualidade artística. Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna, penetrou nos domínios dum impressionismo (sic) discutibilíssimo, e põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura. Sejamos sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de outros tantos ramos da arte caricatural. É a extensão da caricatura a regiões onde não havia até agora penetrado. Caricatura da cor, caricatura da forma - caricatura que não visa, como a primitiva, ressaltar uma idéia cômica, mas sim desnortear, aparvalhar o espectador. A fisionomia de quem sai de uma destas exposições é das mais sugestivas. Nenhuma impressão de prazer, ou de beleza, denunciam as caras; em todas, porém, se lê o desapontamento de quem está incerto, duvidoso de si próprio e dos outros, incapaz de racioconar, e muito desconfiado de que o mistificam habilmente(...)".
Monteiro Lobato
LOBATO, Monteiro. [A propósito da exposição Malfatti]. Apud. BATISTA, Marta Rossetti. Anita Malfatti e o início da arte moderna no Brasil: vida e obra. São Paulo, 1980. Dissertação (Mestrado) - Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP. v. 1. p.165.  [Texto extraído do artigo A propósito da exposição Malfatti, escrito em 1917]

"Possuidora de uma alta consciência do que faz, levada por um notával instinto para a apaixonada eleição dos seus assuntos e da sua maneira, a vibrante artista não temeu levantar com os seus cinqüenta trabalhos as mais irritadas opiniões e as mais contrariantes hostilidades. Era natural que elas surgissem no acanhamento da nossa vida artística. A impressão inicial que produzem os seus quadros é de originalidade e de diferente visão. As suas telas chocam o preconceito fotográfico que geralmente se leva no espírito para as nossas exposições de pintura. A sua arte é a negação da cópia, a ojeriza da oleografia".
Oswald de Andrade
Andrade, Oswald [A Exposição Anita Malfatti]. Apud. BATISTA, Marta Rossetti. Anita Malfatti e o início da arte moderna no Brasil: vida e obra. São Paulo, 1980. Dissertação (Mestrado) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo. v. 1. p.175. [Texto publicado originalmente no Jornal do Commércio em 11 de janeiro de 1918] 

"Monteiro Lobato - estilo clava, estilo pelúcia - tem no diabólico prestígio da sua pena um mágico poder de sedução às vezes perigosos. Com tais artimanhas tece os seus períodos, que o nosso espírito nele se enrosca, se prende; é como visgo para pássaros inexpertos; é como um aranhol para mosquitos incautos...Caí, a respeito de Anita Malfatti, no visgo do seu estilo e, preso por ele, julguei, com o critério de Lobato, sem ver todas as obras da artista, toda a obra dela." Comigo milhares de paulistas, aprioristicamente, assim julgaram essa mulher singular, que, quando não tivesse outro mérito, teria o de haver rompido, com audácia de arte independente e nova, a nossa sonolência de retardatários e paralíticos da pintura....Quando defrontei as telas de Anita, comecei a maturar se a acidez de Lobato era justa, e acabei achando-o cruel e exagerado na formidável catilinária que pespegou na nossa brilhante patrícia..."
Menotti del Picchia
PICCHIA, Menotti Apud. BATISTA, Marta Rossetti. Anita Malfatti e o início da arte moderna no Brasil: vida e obra. São Paulo, 1980. Dissertação (Mestrado) - Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP. v. 1. p. 213 [Texto publicado no Correio Paulistano em novembro de 1920] 

"Anita Malfatti antecedeu, em diversos anos, o primeiro grupo de vanguarda de modernistas brasileiros, que vem dar suas contribuições característicamente modernas a partir de 1923, quando iniciam as fases mais importantes de suas carrieras. O aparecimento prematuro e isolado da expressionoista brasileira contribuiu para sua desestruturação, enquanto que, para o meio, foi da maior utilidade, sendo um dos fatores que o fez entrar em fermentação".
Marta Rossetti Batista
BATISTA, Marta Rossetti. Anita Malfatti e o início da arte moderna no Brasil: vida e obra. São Paulo, 1980. Dissertação (Mestrado) - Escola de Comunicações e Artes da  Universidade de São Paulo - ECA/USP. v. 1.p.255

"Depois da exposição Anita se retirou. Foi para casa e desapareceu, ferida. Mulher que sofre, diria depois Mário de Andrade. Poderíamos dizer que também os primeiros adeptos 'se retiraram', para uma lenta assimilação do 'novo' - levariam anos para passar daquela 'intuição divinatória' à construção de sua própria linguagem, mais característica do século XX. Depois da exposição, da agressão às telas, da devolução dos quadros - e enquanto os futuros modernistas se atualizavam para depois eclodir com força - a pintora, cercada de uma aura de 'maldita', viu sua obra ser silenciada. Ela confessaria mais tarde: 'Então começou o peso do ostracismo. Todo o meu trabalho ficou cortado - alunas, vendas de quadros, e começaram as brigas nos jornais'. Anita Malfatti conhecia agora toda a extensão do fosso que separava as suas obras das acadêmicas locais, pudera avaliar a distância entre as idéias e preocupações artísticas e a realidade do meio intelectual paulistano. Ficou sabendo que não poderiam estimular, compreender, e nem mesmo aceitar 'aquelas coisas dantescas' - violara com elas praticamente todos os padrões da arte acadêmica, e ainda alguns sociais".
Marta Rossetti Batista
BATISTA, Marta Rossetti. Anita Malfatti e o início da arte moderna no Brasil: vida e obra. São Paulo, 1980. Dissertação (Mestrado) - Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA/USP. v. 1. p.196

"Resultado de um fenômeno mais comum do que ainda hoje se imagina no Brasil, a partir da eclosão da I Guerra Mundial vários artistas da vanguarda internacional passaram por um processo de recuperação dos valores da arte anteriores às experimentações estéticas dos primeiros anos do século XX. Alguns, como Picasso e Matisse, enveredaram pela grande tradição da arte européia, sem esquecerem os ensinamentos basilares de Cézanne. Outros, como Derain e Severini, investiram fundo nessa 'implosão', recuperando uma visualidade que às vezes resvalou para um naturalismo de qualidade discutível. Mario Sironi e Carlo Carrà - igualmente sem esquecer Cézanne - preferiram resgatar valores estéticos do primeiro Renascimento. Se Nestor Pestana tivesse visto os desenhos que Malfatti produziu em Paris nos anos 20 - alguns dos quais presentes nessa exposição -, sem dúvida acreditaria que a artista, na encruzilhada percebida em Tropical, havia optado pela senda dos 'abacaxis tão bem acabados'. Logicamente, nesses desenhos não se percebe de forma alguma a artista presa a qualquer surto naturalista radical. Mas, indubitavelmente, ali a linha já não configura mais a forma através de frêmitos expressivos, registros nervosos da ação da artista sobre a matéria do mundo. Anita Malfatti, em seu longo processo de retorno a uma suposta ordem perene da arte, tem nesses desenhos um dos pontos mais altos de sua obra. Neles, a nobre simplicidade e a grandeza serena requeridas por Winckelmann para a obra de arte (e reclamadas por Pestana, Lobato e outros críticos paulistanos) são recuperadas por um traço ainda sensível, porém disciplinado pela observação do caráter linear das obras de artistas como Ingres. Como Picasso e Matisse, Malfatti soube captar na produção daquele mestre francês do século XIX a sensualidade sutil da linha, construindo a forma sem sobressaltos, com absoluta objetividade e requinte. Soube plasmar à expressão interior os códigos da linguagem gráfica mais pura, obtendo não mais registros de uma ação circunstancial, cheia de drama, mas formas que aspiram à eternidade ideal".
Tadeu Chiarelli
CHIARELLI, Tadeu. Arte internacional brasileira. São Paulo: Lemos, 1999. p. 165-167.

Depoimentos

"Quando cheguei à Europa, vi pela primeira vez a pintura. Quando visitei os museus fiquei tonta. Comecei a querer descobrir no que os grandes santos das escolas italianas eram diferentes dos santinhos dos colégios. Tanto me encantavam uns quanto os outros. Fiquei infeliz porque a emoção não era de deslumbramento, mas de perturbação e de infinito cansaço diante do desconhecido. Assim passei semanas voltando diariamente ao Museu de Dresde. Em Berlim continuei a busca e comecei a desenhar. Desenhei seis meses dia e noite. Um belo dia fui com uma colega ver uma grande exposição de pintura moderna. Eram quadros grandes. Havia emprego de quilos de tinta e de todas as cores. Um jogo formidável. Uma confusão, um arrebatamento, cada acidente de forma pintado com todas as cores.  O artista não havia tomado tempo para misturar as cores, o que para mim foi uma revelação e minha primeira descoberta. Pensei, o artista está certo. A luz do sol é composta de três cores primárias e quatro derivadas. Os objetos se acusam só quando saem da sombra, isto é, quando envolvidos na luz. Tudo é resultado da luz que os acusa, participando de todas as cores. Comecei a ver tudo acusado por todas as cores. Nada nesse mundo é incolor ou sem luz. Procurei o homem de todas as cores, Lovis Corinth, e dentro de uma semana comecei a trabalhar na aula desse professor. Comprei incontinente uma porção de tintas, e a festa começou. Continuava a ter medo da grande pintura como se tem medo de um cálculo integral".
Anita Malfatti
BATISTA, Marta Rossetti (Org. ); LOPEZ, Telé Ancona (Org. ); LIMA, Yvone Soares de (Org. ). Brasil: 1º tempo modernista 1917/25: documentação. São Paulo: IEB: USP, 1972, p. 41.

Exposições