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Flavio de Carvalho

Flavio de Carvalho - Duas Mulheres

Duas Mulheres

gravura em metal sobre papel
1972
58 x 38 cm
assinatura inf. dir.
Exemplar P.A. Não possui moldura.
Flavio de Carvalho - Duas Mulheres Flavio de Carvalho - Ave Venus Flavio de Carvalho - Sem Título Flavio de Carvalho - Paisagem Flavio de Carvalho - Matriz para Litogravura Flavio de Carvalho - S/T Flavio de Carvalho - Retrato de Sérgio Milliet Flavio de Carvalho - Soldado

Flavio de Carvalho (Amparo da Barra Mansa RJ 1899 - Valinhos SP 1973)

Pintor, desenhista, arquiteto, cenógrafo, decorador, escritor, teatrólogo, engenheiro.

Muda-se com a família para São Paulo em 1900. Em 1911, passa a estudar em Paris e, três anos depois, na Inglaterra, onde, em Newcastle, em 1918, inicia o curso de engenharia civil no Armstrong College da Universidade de Durham e ingressa no curso noturno de artes da King Edward the Seventh School of Fine Arts. Conclui o curso de engenharia em 1922 e nesse ano volta a residir em São Paulo, onde chega logo após a realização da Semana de Arte Moderna. Desenvolve atividades em várias áreas artísticas e intelectuais, freqüentemente de forma inovadora e provocativa. Participa de concursos públicos de arquitetura, como para o Palácio do Governo do Estado de São Paulo, em 1927, e, embora não tenha sido vencedor em nenhum deles, seus projetos são considerados pioneiros da arquitetura moderna no país. Em 1931, realiza o polêmico evento Experiência nº 2, em que caminha com boné na cabeça, de forma desafiadora, em sentido contrário ao de uma procissão de Corpus Christi e é bastante hostilizado. Em 1932, abre um ateliê, onde funda o Clube dos Artistas Modernos - CAM, com Antonio Gomide (1895-1967), Di Cavalcanti (1897-1976) e Carlos Prado (1908-1992). No ano seguinte, cria o Teatro da Experiência e encena o Bailado do Deus Morto - espetáculo de teatro-dança de sua autoria com estética inovadora, para o qual cria cenografia e figurino e que tem, em sua maioria, atores negros. Realiza, em 1934, a sua primeira exposição individual. A mostra é fechada pela polícia sob alegação de atentado ao pudor, e reaberta alguns dias depois, por ordem judicial. Em 1947, realiza os desenhos da Série Trágica, em que registra a morte da própria mãe. Após publicar, em 1956, uma série de artigos sobre moda na coluna Casa, Homem, Paisagem - em que escreve sobretudo a respeito de arquitetura e urbanismo -, que mantém no Diário de São Paulo, apresenta-se - e causa escândalo - em passeata pelo centro da cidade de São Paulo com o New Look, um traje tropical masculino por ele desenvolvido e que consiste de saia e blusa de mangas curtas e folgadas.

Comentário Crítico

Engenheiro civil formado pela Universidade de Durham, na Inglaterra, Flávio de Carvalho participa do concurso para o Palácio do Governo de São Paulo, em 1927. Seu projeto, bastante discutido, destaca-se entre os concorrentes, principalmente pelo aspecto monumental do edifício, marcado pela decomposição dos volumes e pela intensidade dramática dos jogos de luzes dos holofotes. Em 1930, participa do Congresso Pan-Americano de Arquitetos com a conferência A Cidade do Homem Nu, na qual ressalta a idéia do homem despido dos preconceitos da civilização burguesa. A tese tem ampla conexão com o movimento antropofágico. Participa de vários outros concursos, sem ganhar nenhum. Apenas dois de seus projetos são concretizados: o conjunto de casas da alameda Lorena (1936/1938) e a fazenda Capuava (1939) ambos precursores da arquitetura moderna no Brasil. A casa da fazenda é a que melhor sintetiza suas idéias de arquitetura, movida principalmente pela imaginação e correspondente às novas formas de viver e de pensar. Nela, a decoração é tão importante quanto a arquitetura. Sua frente é um trapézio alto; o interior, um grande salão sem divisórias, com cortinas de panos coloridos que dançam com o vento. Os banheiros e a cozinha são revestidos com chapas de alumínio, material extremamente moderno. Há ainda uma lareira com cúpula de alumínio que solta fumaça colorida.

Na década de 1930 mantém intensa atividade. Em 1931, seus estudos sobre antropologia e psicanálise o levam a realizar a Experiência nº 2. Nela, atravessa uma procissão em sentido contrário. O ato é considerado desrespeitoso pelas pessoas, principalmente pelo fato de ter um boné à cabeça. O artista quase foi linchado e teve que ser protegido por policiais. Sua intenção era testar os limites de tolerância e a agressividade de uma multidão religiosa. Escreve um ensaio sobre o assunto, analisando o ocorrido, publicado no livro Experiência nº 2: uma possível teoria e uma experiência.  O volume é ilustrado pelo artista. Em sua atuação no Clube dos Artistas Modernos - CAM, estimula a vida cultural da cidade de São Paulo e participa da criação de um espaço de discussão de diferentes áreas, agregando artistas, compositores, escritores e psiquiatras. Em 1933, funda o Teatro da Experiência, que encena O Bailado do Deus Morto, um espetáculo experimental de teatro e dança, para o qual cria texto, cenários, figurino e faz a iluminação. Os atores, em sua maioria negros, usam máscaras de alumínio e realizam movimentos dinâmicos e ritualistas. O espetáculo inova a cena teatral brasileira e filia-se às manifestações dadaístas e surrealistas. O teatro é fechado pela polícia, e resulta no encerramento das atividades do CAM. Em 1935, realiza sua primeira exposição individual, também fechada pela polícia, com cinco obras apreendidas sob a alegação de atentado ao pudor e imoralidade. O artista consegue, na Justiça, o direito de reabertura da mostra.

Sua pintura é classificada geralmente como expressionista, embora com aspectos surrealistas. Seus temas mais freqüentes são os retratos, escolha baseada no interesse em captar aspectos emotivos e psicológicos. O artista afirma que "no retrato há um mundo a se descobrir e a se aperfeiçoar; não só no que se refere à dialética pura da pintura como no que toca à importância humana do personagem".1 Alguns de seus mais importantes retratos, realizados na década de 1930, como Retrato de Oswald de Andrade e Julieta Bárbara (1939) e Retrato de Mário de Andrade (1939), trazem um gestualismo que se intensifica em suas composições das décadas seguintes. O ritmo das pinturas é dado pelas pinceladas densas, exacerbadas. O artista utiliza forte cromatismo e dá ênfase ao rosto, com a finalidade de valorizar a carga expressiva e a exploração da personalidade do retratado.

Em 1947, realiza a Série Trágica, desenhos em que, em rápidos traços, retrata sua mãe morrendo. De forma geral, em seu desenho os traços são agressivos, criando uma pulsação gráfica. Nas décadas de 1950 e 1960, pinta nus femininos, dedica-se ao desenho, à aquarela e à gravura. Em 1956, como conclusão de uma série de artigos sobre moda, lança o famoso traje de verão - o New Look, especialmente concebido para o homem dos trópicos, com o qual passeia pelas ruas de São Paulo, chocando a multidão. É composto de uma blusa de manga curta e folgada, um saiote, um chapéu de abas largas, todos feitos com tecidos leves, sandálias e meia arrastão. O desfile com o traje é para o artista mais uma experiência, com a finalidade de levar à reflexão sobre as convenções sociais.

Flávio de Carvalho utiliza ainda materiais novos em seus últimos trabalhos como, por exemplo, tinta fosforescente para luz negra. Animador cultural, irreverente e provocador, é considerado um precursor do artista multimídia. Destaca-se por sua atuação no teatro e suas performances, que abrem caminho para os novos procedimentos artísticos que têm desenvolvimento, no Brasil, a partir das décadas de 1960 e 1970.

Notas

1 Citado no livro 30 Mestres da pintura no Brasil: 30 anos São Paulo: MASP, 2001. p.152.

Críticas

"Flávio de Carvalho não foi um dos participantes da Semana. Apareceu no cenário modernista como enfant terrible, à semelhança do irônico Oswald de Andrade. Destacou-se mais pela vida extravagante que levava e pelas iniciativas consideradas provocatórias e escandalísticas. A ele são creditadas ações importantes para a renovação das artes. Engenheiro, arquiteto, pintor, desenhista de extraordinária inventiva, que o consagra como o número 1 do seu tempo, sociólogo e escritor. Flávio é lembrado como ativista atuante dos anos 30. Tentou, fundando o Salão de Maio, desprovincializar o meio dos 'amadores da arte' presos aos preguiçosos esquemas acadêmicos, porém sem nada obter de válido."
Pietro Maria Bardi
BARDI, Pietro Maria. O modernismo no Brasil. Prefácio Giovanni Lenti. São Paulo: Banco Sudameris, 1978. p. 95. (Arte e Cultura, 1).

"Toda vez que isso lhe foi possível, tratou de criar condições para que a arte produzida no Brasil conhecesse também, e nela se fertilizasse, a ambiência do resto do mundo. Foi dos primeiros a trazer conseqüentemente, para a nossa terra, a obra de artistas europeus, norte-americanos e latino-americanos atualizados. Tal sincronia com a criatividade em âmbito internacional processou-se no caso de Flávio de Carvalho essencialmente através da absorção do expressionismo. (...) A esse expressionismo de base, que lhe convocava as forças de uma selvageria rara na arte brasileira, ele soube incorporar igualmente a dimensão mais sinuosa e sutil do surrealismo, que lhe fornecia o veículo para os vôos vastos de uma imaginação a todo o vapor."
Roberto Pontual
PONTUAL, Roberto. Entre dois séculos: arte brasileira do século XX na coleção Gilberto Chateaubriand. Prefácio Gilberto Chateaubriand; apresentação M. F. do Nascimento Brito. Rio de Janeiro: Jornal do Brasil, 1987.

"Flávio de Carvalho é um expressionista, isto é, alguém que procura externar uma visão do mundo observado de dentro, e para tanto capaz de deformar ou reformar a realidade, reinventar cores e desmontar esquemas tradicionais, levado antes pela emoção do que pelo raciocínio. Como pintor - basicamente de figuras, com especial predileção pelo retrato -, usou de absoluta liberdade formal e cromática, indiferente à fidelidade anatômica, à textura das carnes, ao colorido atmosférico: na busca da expressão, fragmentou freqüentemente o corpo humano em dezenas de segmentos cromáticos, que se confundem aos segundos planos de suas pinturas numa ambigüidade deliberada que possui, mais que função decorativa, papel eminentemente expressivo. A cor torna-se livre - cor pictórica, para além da mera referência às cores naturais; e toda a superfície de seus quadros vibra de um ritmo diferente, tornando-se a figura mero pretexto pictórico. (...) Flávio escreveu (...) dizendo de certa feita sobre o problema da cor e do assunto: 'O problema do conjunto de cores nada tem a ver com o assunto em pintura. Um conjunto de cores sem assunto pode ser tão sugestivo, ou mesmo mais, que um conjunto de cores com assunto'."
José Roberto Teixeira Leite 
LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário crítico da pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988.

"Extremamente heterodoxa, a obra de Flávio de Carvalho não pode ser desvinculada de sua biografia. Ritualizando todos os aspectos de seu cotidiano, para o artista parece nunca terem existido diferenças de grau entre a ação de pintar uma amiga e fazer amor com ela, a ação de registrar graficamente a agonia da mãe e caminhar de chapéu na cabeça em sentido inverso a uma procissão católica. Todas as suas ações eram uma indagação pessoal sobre o eu e o mundo, não importando se essa indagação ficasse registrada ou não em técnicas tradicionalmente tidas como artísticas. Infelizmente, porém, as várias gerações da crítica modernista vêm valorizando apenas os registros materiais de sua passagem pelo circuito brasileiro - a pintura, o desenho, certos feitos arquitetônicos -, esquecendo ou procurando esquecer que muitas vezes o que mais interessa na produção de Carvalho não é o produto final de seu processo criativo (em alguns momentos magistral, como a série de desenhos Minha Mãe Morrendo), mas cada atitude tomada pelo artista para se relacionar com os mistérios do mundo."
Tadeu Chiarelli
CHIARELLI, Tadeu. Às margens do modernismo. In: ______. Arte internacional brasileira. São Paulo: Lemos, 1999. p. 47-59.

"A importância de Flávio de Carvalho para a história da arte brasileira, por mais pontual que seja, está relacionada à energia e inventividade que emanam de suas atitudes. Atitudes essas que não se esterilizam em um culto bizarro da personalidade, mas que abrem todo um universo novo de experimentação artística, à margem das instituições e das práticas tradicionais. Portanto, devemos dizer que a medida de sua exemplaridade não nos chega atrelada aos resultados concretos da obra - o que também é o caso -, mas muito mais de uma potência criativa que é liberada por uma atuação arriscadamente plural. Por mais caótica que tenha sido essa energia, ela não deve ser desprezada; afinal, seu poder de irradiação ainda não se esgotou. Essa possibilidade de pensar a atitude enquanto forma nos obriga a reavaliar, sem reducionismos, a própria noção de obra e de seus modelos de disseminação dentro de contextos culturais específicos.

Apesar do interesse contemporâneo pelo 'artista experimental' - é claro que as performances e a irreverência de Flávio de Carvalho dão-lhe um acento particular -, deve ser acrescentado que as pinturas e os desenhos que produziu têm uma intensidade ainda pouco notada por nossos críticos e historiadores. Especialmente os desenhos, os quais revelam uma ansiedade gráfica mais contundente e desenvolta. Observada em perspectiva histórica, sua pintura dos anos 30 e 40 é mais do que simplesmente peculiar, pois mostra uma vontade de expressão, por meio de uma materialidade que é distinta, mais vigorosa e original do que o acanhamento formal de seus pares".
Luiz Camillo Osorio
OSORIO, Luiz Camillo. Poética em trânsito: Flávio de Carvalho. In: ______. Flávio de Carvalho. São Paulo: Cosac & Naify, 2000. p. 10.

Exposições