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Hércules Barsotti

Hércules Barsotti - Sem Título

Sem Título

guache sobre papel quadriculado
déc. 1950
35 x 39 cm
ass. no verso
Participou da exposição "Hércules Barsotti, opostos determinantes", curadoria de Marilúcia Bottallo, na Galeria Frente, 2016, reproduzido no livro da mostra na pág. 153.
Hércules Barsotti - Sem Título Hércules Barsotti - Sem Título Hércules Barsotti - Sem Título Hércules Barsotti - Sem Título Hércules Barsotti - Sem Título Hércules Barsotti - Sem Título Hércules Barsotti - Sem Título Hércules Barsotti - Nº 11 Hércules Barsotti - Projeto Hércules Barsotti - Projeto Hércules Barsotti - S/T

Hércules Barsotti (São Paulo SP 1914 - idem 2010)

Pintor, desenhista, programador visual, gravador.

Hércules Rubens Barsotti, artista plástico nascido em São Paulo em 1914, ali realizou seus primeiros estudos de desenho com Enrico Vio, de 1926 a 1933. Em 1937, formou-se em Química Industrial pelo Instituto Mackenzie. De 1937 a 1939 trabalhou como químico, e começou a pintar por volta de 1940.

Seus primeiros desenhos abstratos aparecem em 1950 e, a partir de 1954, realiza trabalhos construtivos, independente contudo do grupo concreto paulista. A partir desse mesmo ano passou a trabalhar em desenho têxtil e, juntamente com Willys de Castro, funda o Estúdio de Projetos Gráficos, em São Paulo (1954 - 1967). Até 1957, trabalha ainda como ilustrador de revistas. Sua primeira individual acontece em 1959 na Galeria de Arte Folhas, em São Paulo, e seu trabalho demonstra uma afinidade com o neoconcretismo, assim como o de Willys de Castro. A partir dos anos 1960, participa das bienais internacionais de arte de São Paulo, e apresenta trabalhos nas mostras neoconcretas realizadas nos anos de 1960 e 1961. Com outros artistas, fundou o grupoNovas Tendências (1963 - 1965).

Na década de 1960, amplia significativamente a gama de cores em seus trabalhos, e para isso importou tinta acrílica dos Estados Unidos, um novidade na ocasião. A convivência com Willys deixou marcas profundas na obra de Barsotti. Ambos compartilharam experiências com os maiores nomes da arte concreta mundial, entre eles, Max Bill, grande revelação da primeira bienal realizada em São Paulo, em 1951.

Integrou a Associação Brasileira de Desenhistas Industriais. Foi classificado em concurso nacional de desenho de padronagens têxteis em 1967. Destacou-se entre os modernos programadores visuais brasileiros com suas pesquisas de forma e de cor aplicadas à produção industrial.

Em 1998, Barsotti vendeu sua coleção histórica de arte concreta, desfazendo-se de 21 de seus desenhos que participaram de importantes mostras e bienais. A maior parte dessas obras foi produzida na época da polêmica entre os concretos paulistas, liderados pelo pintor Waldemar Cordeiro, e os neoconcretos cariocas.

Críticas

"Seu interesse é o da natureza da pintura e as possibilidades gestálticas de cor, superfície, espacialidade. Participante ocasional do Grupo Concreto de São Paulo, mais próximo ideologicamente aos artistas do Rio de Janeiro, trabalha, desde o início dos anos 50, a cor, particularmente o preto e o branco, e a dinâmica das possibilidades da forma. Procurando o equilíbrio entre razão e emoção, seus quadros possuem uma qualidade objetual resultante da ilusão tridimensional provocada pela disposição desequilibrada dos campos de cor em relação à moldura. As formas flutuam, giram, escapam para fora da tela. Frederico Morais dele escreve que "tensiona o espaço da tela, criando uma relação da cor com o espaço este se expande e contrai, criando uma relação ambígua entre a forma e o fundo". As telas de Barsotti são "atos de espacialização", conforme colocação de Ronaldo Brito. Na virada da década de 60, produziu uma série de telas em branco e preto ou preto e branco, que são jóias de síntese do tratamento das possibilidades gestálticas da figura/fundo, na qual a figura menor concentra maior energia, criando a ilusão de expansão e rotação com grande economia de elementos".
Gabriela S. Wilder

"As telas de Hércules Barsotti realizariam, a meu ver, o mesmo processo por um caminho inverso: partindo da intuição sensível da cor alcançam a compreensão lógico-estrutural. E isso pode-se verificar, a contracorrente, nas etapas de produção. Primeiro, o pintor como que se despe de matéria e fatura pictóricas e de empatias cromáticas. A cor é tomada como ato puro de espacialização. E o a priori do formato, a opção de atacar deliberadamente triângulos, hexágonos, etc. , assinala o domínio do raciocínio estrutural sobre quaisquer mimetismos. Isto posto, o pintor faz retornar a natureza já como um dos momentos do processo cultural - a natureza como pintura, com a vibração física das cores. Cada tela exala assim um tônus afetivo, certa disposição do espírito para articular e viver um mundo. A figura geométrica vai reaparecer, portanto, qualificada pela cor - não há finalmente triângulos ou quadrados puros e ideais".
Ronaldo Brito

"O observador - bem ou mal-acostumado com o modo de ver uma obra de arte tradicional, após passar pela indefectível associação figurativa que os planos coloridos ou a forma externa de uma obra de Barsotti possam induzi-lo - começa a perceber, por meio do caráter de obra inteira, um fluxo conciso de informações de natureza puramente visual. Como a nossa interpretação dos sinais do perceptível se dá dentro de nós, em primeiro lugar, é bem possível que nesse ponto - com um pouco de esforço e humildade - passemos a indagar mais do objeto percebido do que de nossa memória, ou melhor, de nosso arquivo de modelos e vivências confrontadores. Daí, a um passo, plena de significações imprevistas, sua obra deixa transparecer o que cada um dela deve depreender".
Willys de Castro

"Fascinado pelas superfícies translúcidas, magras e homogêneas que a acrílica permitia executar na tela, Barsotti nunca mais a abandonaria, conquistando com ela uma paleta de enorme riqueza cromática. Suas telas chegaram a articular simultaneamente até uma dezena de faixas de tons. Aos poucos, porém, e mais acentuadamente nestes últimos anos, o artista reduziu os campos de cor utilizados em cada composição. Agora ele os faz com dois ou no máximo três tons, um deles quase sempre ocupando agudíssimas áreas que, além da tensão cromática, promovem um deslocamento virtual dos palnos, instalando uma hipótese de volume. Cada trabalho, vale lembrar, é precedido de projeto traçado com exatidão sobre papel milimetrado. Só depois dos problemas esstarem perfeitamente resolvidos nessa instância é que Barsotti parte para a execução. Ou a delega, sem temores. Afinal, "a execução nunca incorpora surpresas", sustenta ele. "Meu pensamento é arquitetônico, o projeto já é a coisa pronta". A escolha das cores, no entanto, não obedece a esse raciocínio cartesiano. É pessoal e intransferível, construída de modo retiniano, durante a mistura dos pigmentos. Operação semelhante acontece quando a decisão é quanto à área que aquela tonalidade irá ocupar na tela. "Quando encosto uma cor na outra é que percebo a relação entre elas", conta. "Nesse momento, é meu olho e não minha cabeça que decide" ".
Angélica de Moraes

"O sentido de rotação das figuras, a partir do ponto central seria outro modo peculiar de Barsotti experimentar dimensões do espaço e do tempo. Ele gira em poucos graus figuras quadradas inscritas no interior do plano pintado roda 45 graus o suporte do quadro sobre a parede. Na nova posição, o quadrado colocado a partir de um vértice flutua como um losango regular, enquanto as diagonais do quadrado, agora postas em sentido horizontal e vertical, passam a garantir a estabilidade visual do objeto-pintura. Os quadrados expandidos pela diagonal serão definitivamente adotados pelo artista para o desenvolvimento da experiência da cor. Da ordem geométrica, Barsotti atinge a vida da imagem. A estrutura interna da sua obra está fundada na experiência geométrica, mas a certeza sensível advém da prática experimental. A geometria é um instrumento para inventar e experimentar o espaço. Por isso, nunca é demasiado lembrar que os gregos empregaram diretamente a linguagem da proporção, lá onde hoje nos servimos do formalismo calculatório. Pode-se compreender adequadamente a geometria como um modo de apresentar um problema, como aparência sensível de uma idéia que não se expressa por outro código. Ela constitui um dos notáveis capítulos da matemática irracional, o que pode ajudar a compreender que os procedimentos visuais razoáveis e sensíveis não podem ser considerados "racionalistas" ".
Ana Maria de Moraes Belluzzo

Exposições