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Iberê Camargo

Iberê Camargo - Hora

Hora

óleo sobre tela
1984
40 x 57 cm
ass. inf. dir.
Iberê Camargo - Hora Iberê Camargo - Sem Título Iberê Camargo - Manequins Iberê Camargo - Manequins com Bicicletas Iberê Camargo - Série Manequins Iberê Camargo - Carretéis

Iberê Camargo (Restinga Seca RS 1914 - Porto Alegre RS 1994)

Pintor, gravador, desenhista, escritor e professor.

Iberê Bassani de Camargo, em 1928 estuda pintura com Frederico Lobe e Salvador Parlagreco (1871-1953) na Escola de Artes e Ofícios, em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Entre 1936 e 1939, em Porto Alegre, faz o curso técnico de arquitetura do Instituto de Belas Artes de Porto Alegre e estuda pintura com Fahrion (1898-1970). Muda-se para o Rio de Janeiro em 1942 e, com bolsa de estudos concedida pelo governo do Rio Grande do Sul, freqüenta por pouco tempo a Escola Nacional de Belas Artes - Enba. Não satisfeito com a proposta acadêmica, estuda com Guignard (1896-1962) e funda, em 1943, com outros artistas, o Grupo Guignard. Em 1947 recebe o prêmio de viagem ao exterior e vai para a Europa no ano seguinte. Em Roma, estuda com Giorgio de Chirico (1888 - 1978), Carlos Alberto Petrucci, Antônio Achille e Leone Augusto Rosa, e em Paris, com André Lhote (1885 - 1962). Volta ao Brasil em 1950 e, em 1952, torna-se membro da Comissão Nacional de Artes Plásticas. Funda, em 1953, o curso de gravura do Instituto Municipal de Belas Artes do Rio de Janeiro, hoje Escola de Artes Visuais do Parque Lage - EAV/Parque Lage. Em 1954, participa com Djanira (1914-1979) e Milton Dacosta (1915-1988), da organização do Salão Preto e Branco e, no ano seguinte, do Salão Miniatura, ambos realizados em protesto às altas taxas de importação de material artístico. Promove curso livre de pintura no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, em duas temporadas entre 1960 e 1965. Em 1966 executa painel de 49 metros quadrados oferecido pelo Brasil à Organização Mundial de Saúde - OMS, em Genebra. A partir de 1970, leciona na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Em 1980 Iberê Camargo mata a tiros um homem que o agride na rua. É absolvido sob o argumento de legítima defesa, mas o episódio marca profundamente sua vida e sua obra. Em 1986, recebe o título de doutor honoris causa da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Entre suas publicações, constam o artigo Tratado sobre Gravura em Metal, 1964, o livro técnico A Gravura, 1992 e o livro de contos No Andar do Tempo: 9 contos e um esboço autobiográfico, 1988.

Pintando o verde dos pampas

Nascido em Restinga Seca (RS) e falecido em Porto Alegre. Pintor, desenhista e gravador, um dos mais importantes artistas brasileiros do século.

Iniciou seus estudos na Escola de Artes e Ofícios de Santa Maria com Salvador Parlagreco e Frederico Loebe, em seguida frequentando em Porto Alegre o curso técnico de arquitetura do Instituto de Belas Artes (1936-1939), ao mesmo tempo em que tomava aulas de pintura com João Fahrion.

Realizou sua primeira individual em 1942, em Porto Alegre, nesse mesmo ano transferindo-se ao Rio de Janeiro com bolsa de seu Estado natal afim de se aperfeiçoar em pintura.

A influênciade Guignard

Na capital cursou por muito pouco tempo a Escola Nacional de Belas Artes, mas não se adaptando à orientação acadêmica ali vigente trocou-a pelos ensinamentos de Guignard, ministrados durante apenas dois meses em dependências do prédio da União Nacional dos Estudantes à Praia do Flamengo para um grupo de cerca de 30 alunos.

Cheguei ao Rio em agosto de 1942. E trazia comigo uma grande vontade de aprender. Através do casal Augusto Meyer conheci Portinari e Lelio Landucci, a quem me liguei fraternalmente. Landucci, sensível e inteligente, sabia ver e ensinar a ver.

Após uma rápida passagem pela Escola Nacional de Belas Artes, tornei-me aluno de Guignard. A sua obra teve breve influência sobre o meu trabalho, mas marcou-me para sempre a pureza do seu espírito.

A gafieira virou ateliê

Em 1943 Iberê fundou com Geza Heller e Elisa Byington o Grupo Guignard, um ateliê coletivo que funcionava num prédio da Rua Marquês de Abrantes, em Botafogo, onde antes existira a gafieira Flor do Abacate, o que levou o poeta Manuel Bandeira a batizar o grupo de Nova Flor do Abacate.

Guignard se incumbia das aulas de desenho e pintura, e segundo Iberê impunha o uso do lápis duro, duríssimo, o que deixava sulcos no papel como se tivessem sido feitos por um prego.

Dessa mesma época datam seus primeiros ensaios com a gravura em metal, sob a orientação de Hans Steiner e do próprio Guignard.

Alçando o voo das águias

Recebendo em 1947, pela Divisão Moderna do Salão Nacional de Belas Artes, o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro, estuda em 1948 em Roma com De Chirico, Achille, Rosa e Petrucci, e em 1949 em Paris com André Lhote, retornando em 1950 ao Brasil.

Em 1953 torna-se professor de gravura no Instituto de Belas Artes do Rio de Janeiro, lecionando mais tarde essa técnica em seu próprio ateliê ou em permanências mais ou menos longas em Porto Alegre e outras cidades, inclusive do Exterior.

Tendo participado de vários salões da Bienal de São Paulo (Prêmio de Melhor Pintor Nacional na 4ª Bienal, em 1961, salas especiais de pinturas, gravuras e desenhos na 7ª Bienal, em 1963, e na 9ª Bienal, em 1971), Iberê tomou parte também em 1961 da Bienal de Tóquio (voltando a fazê-lo em 1968) e em 1962 da Bienal de Veneza, além de ter realizado uma retrospectiva no MAM-RJ.

Entre mostras e encomendas

Sempre em 1962 pintou por encomenda da Companhia de Navegação Costeira dois grandes painéis para os navios Princesa Isabel e Princesa Leopoldina, do mesmo modo como em 1966 seria o autor do grande painel oferecido pelo Brasil para figurar na sede da Organização Mundial da Saúde em Genebra, na Suíça.

O artista realizou inúmeras individuais, em cidades como Porto Alegre, Santa Maria, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Niterói, Montevidéu, Paris, Londres e Washington.

Destacam-se as retrospectivas de 1979 no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (desenhos), repetida em 1980 no Museu Guido Viaro de Curitiba, a exposição comemorativa dos 70 anos do artista, que itinerou em 1984 por Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

Mais exposições

Acrescente-se a retrospectiva de 1990 no Espaço Cultural Banco Francês e Brasileiro em Porto Alegre (gravuras), repetida em 1991 no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e a grande retrospectiva de 1994 no Centro Cultural Banco do Brasil, também no Rio de Janeiro.

Quanto a coletivas nas quais marcou presença no exterior, mencionem-se, por sua importância, a Bienal do México (1958), a Exposição Internacional de Gravura de 1971 na Iugoslávia, a 10ª Quadriennale Nazionale d"Arte di Roma (1977), Modernidade - Arte Brasileira do Séc. XX (1988, MAM de Paris e depois MAM-SP)

No Brasil, participou ainda das exposições Entre a Mancha e a Figura no MAM-RJ (1982), Expressionismo no Brasil: Heranças e Afinidades (18ª Bienal de São Paulo, 1984), , Mário Pedrosa: Arte, Revolução e Reflexão (1991, Centro Cultural Banco do Brasil, RJ), Bienal Brasil Século XX (1994, São Paulo) e Grito (1997, Museu Nacional de Belas Artes).

A fase figurativa

Estilisticamente Iberê Camargo foi de início figurativista, trabalhando a paisagem, a figura humana e a natureza-morta em obediência a uma concepção naturalista-expressionista que tinha na cor sua principal característica. Por sua obra perpassaram então diversas influências, de Portinari aos mexicanos e de Guignard a Picasso.

Típica dessa sua fase inicial é a Vista da Lapa, do Museu Nacional de Belas Artes, com que ganhou o prêmio de viagem ao estrangeiro do Salão de 1947: lírica, mas ao mesmo tempo vigorosa, executada em pinceladas encrespadas e num vívido colorido.

Despojando-se gradativamente pelos próximos anos, Iberê permaneceu fiel à representação das formas e cores naturais até 1959, época em que deu início a série dos Carretéis, na qual ainda permanecem as referências ao mundo objetivo, só que diluídas em denso colorido e truculenta matéria.

Abraçando o não-figurativismo

Em princípios da década de 1960 o pintor abraçou conscientemente o não-figurativismo, do qual seria um dos principais senão o principal representante no Brasil, e do qual não se afastaria mesmo depois que a tendência deixou de seduzir nossos artistas.

Em anos posteriores deu-se em sua pintura como que uma explosão da cor a partir dos fundos negros em que geralmente se resolvia, embora a opulenta textura permanecesse como característica principal de seus quadros. Como ele próprio explicou, em entrevista a Walmir Ayala, por uma necessidade quase táctil minha pintura é pastosa. Não se creia, entretanto, que emprego relevos ou texturas preestabelecidas, como fazem alguns pintores. A espessura resulta da superposição de camadas que coloco no afã de encontrar a cor ou o tom exato.

O gosto amargo da tragédia

Na década de 1980, após o dramático episódio em que o artista se envolveu num lamentável incidente de rua no Rio de Janeiro, sua arte instintivamente retomou o figurativismo, assim permanecendo até seus últimos anos.

As figuras humanas que a partir de então pinta ou desenha saem-lhe esquálidas, trágicas como a humanidade espectral de Giacometti, banhadas numa atmosfera de infinita solidão e desesperança.

Nesses momentos finais o homem corroído pelo sofrimento se purifica, enquanto o artista atinge a plenitude de sua arte para se tornar uma das expressões mais altas da moderna pintura brasileira.

Comentário crítico

Iberê Camargo sai da casa dos pais em 1922, para estudar. Cinco anos depois, inicia sua educação artística na Escola de Artes e Ofícios de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Tem aulas de pintura com Frederico Lobe e Salvador Parlagreco (1871-1953). O ensino é acadêmico e consiste na cópia de reproduções retiradas de revistas. Em 1929, Iberê se desentende com o professor de letras, interrompe o aprendizado e volta a morar com a família. Aos 18 anos, emprega-se como aprendiz no Batalhão Ferroviário. Passa para o posto de desenhista técnico, aprende geometria e perspectiva. Permanece no cargo até 1936, quando retoma os estudos em Porto Alegre e ingressa no curso técnico de arquitetura do Instituto de Belas Artes, com orientação do professor Fahrion (1898-1970).

A partir de 1940, o artista passa a dedicar-se às artes com mais afinco, desenha personagens da rua e aumenta progressivamente seu interesse pela pintura. Realiza telas em que retrata sua esposa e faz paisagens, que pinta com grande espontaneidade. Em quadros como Dentro do Mato (1942), ele diz procurar o instante fugidio.1 Pinta um panorama natural, traçando as figuras com gestos fortes sobre a massa espessa de tinta. Esse procedimento não encontra lugar no ambiente artístico acadêmico do Rio Grande do Sul da época. Por isso, o pintor procura ampliar seus horizontes: ele pleiteia e consegue bolsa do governo gaúcho para estudar no Rio de Janeiro.

Iberê Camargo chega à capital federal no fim de 1942. Logo conhece Candido Portinari (1903-1962), Djanira (1914-1979), Milton Dacosta (1915-1988) e Maria Leontina (1917-1984). Alguns meses depois, ingressa na Escola Nacional de Belas Artes - Enba. Não se satisfaz com o academicismo e abandona o curso. Segue indicação de Portinari e passa a assistir às aulas de desenho de Guignard (1896-1962). As faturas tornam-se mais ralas e de gestualidade menos pronunciada. Em Auto-Retrato (ca.1943), o pintor tenta reconstituir o aspecto diáfano da pintura de Guignard.

No decorrer dos anos 1940, faz várias paisagens urbanas, com cenas das ruas cariocas. Com Lapa (1947), ganha o prêmio de viagem ao exterior do Salão Nacional de Belas Artes de 1947. No ano seguinte, desembarca na Itália, e tem aulas de pintura com Giorgio de Chirico (1888-1978) e de gravura com Petrucci em Roma. Em Paris, torna-se aluno de André Lhote (1885 - 1962) em 1949. Ele aproveita a temporada para conhecer o acervo dos museus. Passa pela Inglaterra, Espanha, Holanda e Portugal, estuda com afinco Michelangelo Buonarroti (1475-1564), Ticiano (ca.1488-1576), Jan Vermeer (1622-ca.1670), Pablo Picasso (1881-1973), El Greco (1541-1614) e Jacopo Tintoretto (1519-1594).

Volta ao Brasil em 1950. No ano seguinte dá aulas de desenho em seu ateliê e inicia campanha contra a taxação do material de pintura importado. Participa da organização do Salão Preto e Branco, em 1951, que pretende alertar para o risco de os pintores brasileiros ficarem sem cores. Iberê insiste nessa militância até o fim de sua vida. Em 1953, é contratado como professor do Instituto Municipal de Belas Artes do Rio de Janeiro, onde inaugura a cadeira de gravura, iniciando importante trajetória nessa técnica. Entre seus alunos encontram-se artistas como Regina Silveira (1939), Eduardo Sued (1925), Carlos Vergara (1941) e Carlos Zilio (1944).

A tendência ao escurecimento de sua paleta e a dedicação a temas ligados ao ambiente de estúdio se acentuam a partir de 1958. Uma hérnia de disco o obriga a pintar somente no ateliê. Seu trabalho deixa de procurar a rítmica das cores nas paisagens e passa a se interessar majoritariamente pela disposição dos objetos em naturezas-mortas. Nesses quadros, predominam tons escuros, azulados e violetas. Progressivamente, um pequeno objeto, utilizado por Iberê como brinquedo em sua infância, toma conta das telas: o carretel. A pintura dos carretéis, a princípio, compõe uma série de naturezas-mortas. O artista distribui os objetos na mesa, representando-os de forma figurativa. Com o tempo, aqueles corpos roliços perdem sua função representativa e se tornam formas espessas de tinta. Será o início do trabalho abstrato de Iberê Camargo. Essa produção engrossa ainda mais a massa de tinta e incorpora mais cores. Um aspecto mais gestual dá origem aos trabalhos feitos a partir dos anos 1960, bastante próximos da abstração informal, que se tornam conhecidos como Núcleos, Estruturas e Desdobramentos.

No começo dos anos 1970, aparecem signos e figuras reconhecíveis pontuando as pinceladas grossas de cores indefinidas de sua pintura. De certo modo, esta dinâmica prenuncia a volta à figuração do artista nos anos 1980. O ano de 1980 é particularmente dramático para o pintor, que é preso por ter matado um homem. Ao ser absolvido, em 1982, ele volta a viver em Porto Alegre. A pintura que começa a fazer depois ganha tom dramático. A princípio, insere figuras humanas que convivem, em grandes telas, com signos mais corriqueiros de sua obra. Ele se retrata em meio a carretéis e cubos.

Paulatinamente, a figura humana torna-se o centro da cena das pinturas de Iberê Camargo. A partir da segunda metade da década de 1980, pinta personagens solitários, sombrios e disformes. A ação das telas ocorre em um fundo indefinido, feito com tinta grossa e pintado com grande maestria. Surgem aí as chamadas séries dos Ciclistas, das Idiotas e um de seus últimos conjuntos de obras intitulado Tudo te é falso e inútil, de 1992. O crítico de arte Ronaldo Brito diz que as últimas telas de Iberê Camargo assustam e encantam, ao mesmo tempo. Assustam pela sobriedade terrível com que põem em evidência o drama do sujeito moderno, aparentemente no estágio final de dissolução encantam pela qualidade da matéria pictórica que resistiria, paradoxalmente, a todas as violências e degradações.2 No dia 8 de agosto de 1994, Iberê Camargo falece em decorrência de câncer no pulmão.

Notas
1 CAMARGO, Iberê - Um esboço autobiográfico. In: ______. Gaveta dos Guardados. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998. p.172.

2 BRITO, Ronaldo. O eterno inquieto. In: ______. Iberê Camargo. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 1994. p. 17.

Críticas

"Tentemos reconhecer o que caracteriza fundamentalmente a pintura de Iberê Camargo acompanhando, no artista, o que chamamos o processo de criação. Há inicialmente uma primeira concepção figurativa, a procura de uma arte táctil que encontrará no não-figurativo sua expressão mais alta e realizar-se-á finalmente no gestual. Iberê Camargo tem a presciência de não se fiar inteiramente no demonstrativo. Ele sabe que em arte as melhores realizações ultrapassam o raciocínio dedutivo. Entrega-se e abandona-se à inspiração que não é ´sopro artificial´ de que falou Mallarmé, mas uma abertura para o desconhecido. (...) Camargo sempre virou as costas para a arte oficial e toda tentativa nesse sentido morreu em embrião. Há arranhões, traços de revolta. Sentimo-lo como que impaciente para viver sua arte. Ele tem também o dom de insinuar aquilo que gostaria de evocar. Assim é que na sua pintura sente-se em toda parte o mar, sem vê-lo jamais, pois tudo é signo e tudo nele se resume no signo. É por isso que Camargo se comunica conosco. Sua pintura é virulenta, às vezes mesmo vulcânica como uma lava cuja torrente chega até nós".
Pierre Courthion (Tradução: Anamaria Skinner)
COURTHION, Pierre. Iberê Camargo: nascimento de um artista. In: IBERÊ Camargo. Porto Alegre: Margs; Rio de Janeiro: Funarte, 1985. p. 65-69. (Coleção contemporânea, 1).

"Ao contrário de Bandeira, de suas ´féeries´ luminosas, tudo em Iberê Camargo é energia, drama, emoção à flor da pele. 'Eu não pinto modelos, pinto emoções´, afirma o artista. O quadro é sempre um abismo emocional, uma angústia sem fim. Mais de uma vez ele se comparou a Sísifo. Em seu ateliê, em Porto Alegre, aponta-me uma tela que acabara de retocar pela enésima vez, me diz: ´Parecia, de início, que eu ia pintar uma alvorada. Terminei fazendo um noturno. O que posso fazer? Tenho uma visão trágica da vida. Não sou um homem alegre, não vejo nenhum futuro para a humanidade, nenhum céu (...). 'São dois os tempos perceptivos em sua pintura. O primeiro aproxima-se do tátil, é altamente provocativo, sensorial. Apenas o interdito secular nos inibe de tocar a superfície pintada e sentir fluir, nos dedos, torvelinho de emoções tumultuadas. Tem-se a sensação de que o quadro foi concluído ali, naquele exato momento. A tinta aparece, ainda, molhada, o gesto vibra, a cor pulsa entre negros e violetas. Bem próximo ao quadro, portanto, o que se sente é a pura materialidade da pintura. Depois, a distância, os planos se abrem e as formas se organizam, surgindo, como conseqüência, misteriosas figuras, fantasmas ameaçadores".
Frederico Morais
MORAIS, Frederico. Abstração informal. In: DACOLEÇÃO: os caminhos da arte brasileira. São Paulo: Júlio Bogoricin, 1986. p.161. 

"O momento principal da gravura de Iberê vai de 1958 a 1970, aproximadamente. É quando ele - e vários outros artistas do país - atravessam a passagem da figuração à abstração. Utilizando um tema, carretéis, o pintor (e gravador) gaúcho cumpre uma trajetória absolutamente íntegra e orgânica".
Olívio Tavares de Araújo
ARAÚJO, Olívio Tavares de. As evoluções da gravura nas mãos do Mestre Iberê. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 6 mar. 1991.

"Sem exagero, acredito, a obra de Iberê Camargo encarna hoje a pintura moderna no Brasil. A imagem, corriqueira, adquire no caso valor expressivo de verdade: as suas telas parecem efetivamente encarnar a pintura. Numa acepção muito específica, inclusive, ao reenfatizar dramaticamente a origem corpórea da concepção de Forma ocidental. Um embate contemporâneo, incerto e saturado, com a gênese e a história da forma na tradição pictórica do Ocidente seria talvez o mais próximo que se poderia chegar de uma caracterização concisa dessa pintura profunda, mas de impacto imediato, com acentos trágicos porém avessa à grandiloqüeência, tão ardentemente individualista quanto generosamente pública".
Ronaldo Brito
BRITO, Ronaldo. Iberê Camargo. Tradução Cecil Stuart Birkinshaw; apresentação Jorge Gerdau Johannpeter, Alexandre Dórea Ribeiro; introdução Rodrigo Naves; fotografia Luiz Eduardo Robinson Achutti, Romulo Fialdini; edição Alexandre Dórea Ribeiro. São Paulo: DBA, 1994. p. 33. 

"A pintura de Iberê Camargo surge em condições adversas, na periferia da periferia da cultura universal. No sul, na província, deslocada tanto dos centros universais como dos nacionais. Vencer esse déficit a partir mesmo das limitadas condições locais e de uma forte convicção adquirida - o ilimitado respeito pela alta cultura, a admiração incontida pelos mestres da tradição, a consciência plena da necessidade e critério na formação artística - é tarefa que Iberê se impõe para se tornar pintor. É mais que evidente que sua ambição artística era consciente dos limites da condição cultural brasileira, do nosso atraso e isolamento. Esses ingredientes, mistura de provincialismo e arrebatamento artístico transcendente, dão, creio, o sentido particular e fundamental da obra de Iberê Camargo, que não se encontra, com a mesma veemência, em nenhum outro artista brasileiro.

Uma deformação estrutural típica brasileira, conjugada a uma ambição artística como poucas, estabelece o impulso e conflito por onde corre toda a obra: a irresolvida tensão entre deficiência do ambiente local e aspiração artística universal.

Disso resulta seu destino um tanto solitário tanto pela atitude quanto pela poética artísticas. O expressionismo é uma manifestação rara entre nós, minoritária, de uns poucos. Tudo indica que o destino de expressionista na arte brasileira é ser solitário. É o caso de Iberê, solitário e também revoltado. A revolta em Iberê é índice de um impulso individualista, ambiguamente moderno, antiprovinciano, antiburocrático, anti-establishment".
Paulo Venâncio Filho
VENÂNCIO FILHO, Paulo. Iberê Camargo: Uma trajetória através da pintura moderna e além. In: CAMARGO, Iberê; SALZSTEIN, Sônia (coord.). Diálogos com Iberê Camargo. Texto Sônia Salzstein. São Paulo: Fundação Iberê Camargo : Cosac & Naify, 2003. p 127-128.

Depoimentos

"[O] desabafo corrosivo como o ácido que [Iberê Camargo] usa para gravar suas imagens no metal é mais uma faceta do perfeccionismo de Iberê. [...] Ele nunca se conforma com os limites. E, mesmo teimando em viver no Brasil, não aceita dourar a pílula para tornar as coisas mais suportáveis. 'A economia deste país vai estrangulando todo gesto livre, vai cerceando, impedindo', espeta. [...] Também ele adaptado ao Terceiro Mundo soube teimar e insistir. Valeu a pena.

" 'O mais gostoso', diz [Carlos] Martins, 'foi constatar a correspondência perfeita entre a gravura e a pintura de Iberê'. O curador [o mesmo Carlos Martins] assinala a semelhança entre a fartura de tintas que costuma habitar as telas do pintor e o acúmulo de matéria que conseguiu obter em sua obra gráfica. Esse acúmulo foi feito por gradativos banhos de ácidos na mesma imagem. [...] O artista se revela essencialmente um gravador em metal. São poucas as imagens em outra técnica. A litografia [...] só surge em breves momentos, na retomada da gravura. Mas ele logo iria voltar às sutilezas do metal, embora venha encontrando dificuldades crescentes para montar uma equipe de auxiliares que o livre das tarefas mecânicas e árduas da técnica, como polir as chapas de cobre, dar os banhos de ácidos e imprimir a tiragem na prensa".
Iberê Camargo
MORAES, Angélica de. Gravuras de um "malnascido", o genial Iberê Camargo. Jornal da Tarde, São Paulo, 6 mar. 1991.

"Estudei gravura com o Carlos Petrucci, em Roma. De volta ao Brasil, fundei em 1953, no Rio de Janeiro, o curso de gravura no Instituto Nacional de Belas Artes. Escrevi tudo isso, tanto que agora saiu pela editora Sagra um livrinho meu sobre técnicas de gravura. É o fruto do meu estudo, da minha experiência, da minha caminhada. Sou da época do Goeldi, que fazia xilogravura com cepo de tamanco e canivete. Eu improvisava um buril com agulha de costura ou de gramofone. Fiz um enorme esforço para redescobrir a roda. Fui aluno e professor de mim mesmo. [...]

A obra do Goeldi era de uma economia de meio! Ele tinha o que dizer. E disse com poucas palavras. O Goeldi não concedia. Era muito íntegro, muito sincero, muito ele. Não gostava do Picasso. Para mim foi muito gratificante conhecer o Goeldi. Era um bom amigo".
Iberê Camargo a Augusto Massi
MASSI, Augusto. Iberê Camargo. O artista plástico recorda seu encontro com De Chirico e Portinari e fala sobre seu processo de criação. Folha de S. Paulo, São Paulo, 20 set. 1992.

"No ato da pintura, você faz um esforço de reconstrução?

Não, nada disso. Eu como pintor sou apenas um operário. Eu procuro fazer meu objeto da melhor forma possível, como se fosse uma mesa, uma cadeira. Atendo a sua necessidade de ser, de seu existir. Eu sei que uma mesa tem tantos pés, não pode ficar solta no espaço. Tenho de me submeter a essa necessidade construtiva do objeto comum para fazer minha pintura da melhor maneira que posso fazer, com meus conhecimentos de pintor, de artesão, de brochador de parede, não mais que isso. Agora se eu tenho essas ansiedades, isso é que é a pergunta. Por que procuras tanto essa imagem? Por que desmanchas tantas vezes, por que tu refazes, me dizem. Um pintor em São Paulo assistiu ao vídeo e disse ter visto desfilar uma humanidade, porque são tantas figuras que surgem, e que eu rejeito. Por que eu rejeito? Gostaria de saber. Para mim, é porque aquela formalmente é mais plástica, tem mais verdade como imagem. Mas eu posso estar dando a definição de um esteta, de um artista. Pode ser que eu esteja até sendo enganado por mim mesmo.

Talvez eu esteja procurando, sem saber, a primeira imagem, a imagem da mãe. Aí, quando a coisa se apresenta, aí satisfaz. Não sei dizer de antemão como ela é, mas sou capaz de reconhecê-la. É ela, eu sei".
Lisette Lagnado e Iberê Camargo
LAGNADO, Lisette. Conversações com Iberê Camargo. São Paulo: Iluminuras, 1994. p. 33.

"Minha gravura e minha pintura sempre caminharam de forma paralela. Nem podia ser desligada. Porque eu sempre pinto o agora. Mas como não sou um saco vazio, esse agora tem muita coisa dentro, que vem à tona, que participa do hoje. Quando eu pinto o agora, estou pintando o ontem e já abrindo espaço para o futuro. É por isso que eu digo que ninguém pode caminhar sem colocar um passo na frente e outro atrás. Esse negócio de caminhar pulando não dá. Por isso que esse desejo de ruptura com as coisas é como querer tirar uma perna. Vai caminhar pulando como um sapo?"
Iberê Camargo
ÁS VÉSPERAS dos 80 anos, o pintor é homenageado pela Bienal, escreve livro de memórias e planeja voltar às paisagens que fazia nos anos 40. Folha de S. Paulo, São Paulo, 6 mar. 1994.

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