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Tarsila do Amaral

Tarsila do Amaral - Natureza Morta

Natureza Morta

óleo sobre tela
1919
59 x 49 cm
assinatura inf. dir.
Reproduzido em cores no catálogo do leilão de Renato Magalhães Gouvêa, leilão de setembro de 1982, lote nº 173.
Tarsila do Amaral - Natureza Morta Tarsila do Amaral - Composição (Figura Só) Tarsila do Amaral - Paisagem Com Bicho Antropofágico II Tarsila do Amaral - Estudo de Ilustração para Capa do Livro "O Futuro Pianista" de Souza Lima

Tarsila do Amaral (1886 - 1973)

Tarsila do Amaral foi uma pintora e desenhista brasileira, uma das artistas centrais da pintura brasileira e da primeira fase do movimento modernista brasileiro, ao lado de Anita Malfatti. Seu quadro Abaporu, de 1928, inaugurou o movimento antropofágico nas artes plásticas.

Juntamente com Candido Portinari, Di Cavalcanti, José Pancetti e alguns outros pintores, Tarsila; dona de referência bibliográfica invejável – creio que sobre ela e sua arte todos os aspectos importantes e menos importantes já tenham sido explorados – faz parte da própria história da arte moderna brasileira.

A ‘Caipirinha’ vestida por Jean Patou e (Paul) Poiret, viveu a prodigiosa efervescência e a desvairança dos anos ’20 no Brasil e na França, e deles tirou grande proveito.

E  studou com William Zadig, Mantovani, Pedro Alexandrino e Georg Elpons, no Brasil; em Paris, com Emile Renard na “Académie Julian”, André Lhote, Albert Gleizes e Fernand Léger, o qual exercerá grande influência, em virtude da poética seguida por ambos os artistas incorporarem em suas obras, a dinâmica das transformações industriais na França e no Brasil com suas particulares especifidades.

Relacionou-se com Pablo Picasso cuja obra não a influenciou, viu de perto a produção dos dadaístas e futuristas, pôs-se em contato com Blaise Cendrars, Ambroise Vollard, Eric Satie, Léonce Rosenberg Jean Cocteau, Jules Supervielle, Jules Romains, Arthur Rubinstein, Maurice Raynal, Paul Morand, Frederic Brancusi e muitos outros.

Aracy A. Amaral e Sônia Salzstein e outros importantes nomes de nossas artes já deram conta do recado.

Seus tons, de intensidade e força absurdas, são reminiscências de infância da pintora nascida em Capivari, interior de São Paulo. Desde então, Tarsila adota de forma quase que rebelde e contestadora, cada colorido excessivo para, assim, melhor representar um país-aquarela.

Engana-se, no entanto, quem acredita ser uma pintora estritamente rural.

Biografia de Tarsila do Amaral

Nasceu em 1 de Setembro de 1886, na Fazenda São Bernardo, em Capivari, interior de São Paulo, de lar fisiocrata, patriarcal, autoritário e legítimo representante da potente oligarquia cafeeira paulista – já herdeira de apreciável fortuna e diversas fazendas, nas quais Tarsila passou a infância e adolescência, foi-lhe ensinado a ler, escrever, bordar e falar francês.

O lazer se dividia entre o piano, passeios campestres e a pesquisa minuciosa nos numerosos volumes da biblioteca paterna. Estudou em São Paulo, em um colégio de freiras do bairro de Santana e no Colégio Nossa Senhora de Sion. Completou seus estudos em Barcelona, na Espanha, no Colégio Sacré-Coeur de Jésus. A figura 1 mostra o primeiro quadro pintado por “Tharcilla” conforme “Raisonné Tarsila do Amaral (vide Vol. 1, pág. 63).

Primeiro casamento e maternidade

1906: Casou-se com seu primo materno, o médico André Teixeira Pinto; mas André e o conservadorismo da época a impediam de qualquer desenvolvimento artístico, fazendo com que esse primeiro casamento fracassasse rapidamente. Com ele teve sua única filha, a menina Dulce, nascida no mesmo ano do casamento. Tarsila se separou logo após o nascimento da filha e voltou a morar com os pais na fazenda, com a filha.

Início da carreira

1916: Iniciou estudos de escultura com o escultor William Zadig e Mantovani em 1916. No ano seguinte, começou a aprender pintura com Pedro Alexandrino Borges e mais tarde, estudou com o alemão George Fischer Elpons.

1920: Incentivada por João de Souza Lima – amigo da família de Tarsila, que havia obtido bolsa de estudos da “Comissão do pensionato Artístico do Estado de São Paulo – leia-se Freitas Valle e Villa Kyrial – que estava vivendo em Paris; viaja a Paris e freqüenta a Academia Julian, onde desenhava nus e modelos vivos intensamente. Também estudou na Academia de Émile Renard. A artista estudou também com Lhote e Gleizes, outros mestres cubistas. Cendrars também apresentou a Tarsila pintores como Picasso, escultores como Brancusi, músicos como Stravinsky e Eric Satie. E ficou amiga dos brasileiros que estavam lá, como o compositor Villa Lobos, o pintor Di Cavalcanti, e os mecenas Paulo Prado e Olívia Guedes Penteado.

Tarsila oferecia almoços bem brasileiros em seu ateliê e era convidada para jantares na casa de personalidades da época. Vestia-se com os melhores costureiros e, em uma homenagem a Santos Dumont usou uma capa vermelha que foi eternizada por ela no auto-retrato “Manteau Rouge”, de 1923.

1922: Sua tela “Passaporte” foi admitida no “Salon Officiel des Artistes Français”.

Expôs no Salão de Belas Artes de São Paulo no Palácio das Indústrias.

Apesar de ter tido contato com as novas tendências e vanguardas e, portanto, já ter sido apresentada ao Modernismo, Tarsila somente aderiu às idéias modernistas ao voltar ao Brasil, em 1922. Foi apresentada por Anita Malfatti aos modernistas, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia. Esses novos amigos passaram a freqüentar seu atelier, formando o Grupo dos Cinco.

1923: Em janeiro de 1923, na Europa, Tarsila se uniu a Oswald de Andrade e o casal viajou por Portugal, Espanha e Itália. De volta a Paris, estudou com os artistas cubistas: freqüentou a Academia de Lhote, de Albert Gleizes, conheceu Pablo Picasso, Blaise Cendrars e tornou-se amiga do pintor Fernand Léger, visitando a academia desse mestre do cubismo, de quem Tarsila conservou, principalmente, a técnica lisa de pintura e certa influência do modelado legeriano. Pintou a obra “A negra” que impressionou muito Léger.

Fases Pau-Brasil e Antropofagia

Encontrei em Minas as cores que adorava em criança.
Ensinaram-me que eram feias e caipiras.
Mas depois vinguei-me da opressão, passando-as
para as minhas telas: o azul puríssimo, rosa violáceo,
amarelo vivo, verde cantante, … Tarsila.

1924: Em 1924, em meio à uma viagem de "redescoberta do Brasil" com os modernistas brasileiros e com o poeta franco-suíço Blaise Cendrars – Carnaval no Rio de Janeiro e Semana Santa nas cidades históricas mineiras – Tarsila iniciou sua fase artística “Pau-Brasil”, dotada de cores e temas acentuadamente tropicais e brasileiros, onde surgem os "bichos nacionais" (mencionados em poema por Carlos Drummond de Andrade), a exuberância da fauna e da flora brasileira, as máquinas, trilhos, símbolos da modernidade urbana.

Revolução de Isidoro.

1926: Casou-se com Oswald de Andrade em out.1926 e, no mesmo ano, realizou sua primeira exposição individual, na Galeria Percier, em Paris.

1928: Em 1928, Tarsila pinta o Abaporu, cujo nome de origem indígena significa "homem que come carne humana", obra que inspirou o Movimento Antropofágico, idealizado pelo seu marido.

Oswald ficou impressionado com o quadro e disse que era o melhor que Tarsila já havia feito. Chamou o amigo e escritor Raul Bopp, que também achou o quadro maravilhoso. Eles acharam que parecia uma figura indígena, antropófaga, e Tarsila lembrou-se do dicionário Tupi Guarani de seu pai. Batizou-se o quadro de “Abaporu” – a artista contou que o Abaporu era uma imagem do seu inconsciente, e tinha a ver com as estórias de monstros que comiam gente que as negras contavam para ela em sua infância – e que significava homem que come carne humana, o antropófago.

Oswald escreveu o Manifesto Antropófago e fundaram o Movimento Antropofágico. A figura do Abaporu simbolizou a Antropofagia que propunha a digestão de influências estrangeiras, como no ritual canibal (em que se devora o inimigo com a crença de poder-se absorver suas qualidades), para que a arte nacional ganhasse uma feição mais brasileira.

Em julho de 1929, Tarsila expõe suas telas pela primeira vez no Brasil, no Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, em virtude da quebra da Bolsa de Nova York, conhecida como a Crise de 1929, Tarsila e sua família de fazendeiros sentem no bolso os efeitos da crise do café e Tarsila perde sua fazenda. Ela perdera praticamente todos os seus bens e sua fortuna.

Vale um esboço dos ciclos produtivos e as conseqüências do “crack” da Bolsa americana. O desenvolvimento brasileiro se dava aos saltos; no século XVII com os engenhos de açúcar, depois foi a vez dos mineradores de ouro de Minas Gerais, seguidos pelos barões do café em terras fluminenses até chegar aos primeiros decênios do século XX, com o domínio da oligarquia agrária do café paulista e a edição tupiniquim – mas não menos grandiosa que a européia – da “Belle Époque”. A crise do café começou em 1920; o mundo consumia cerca 22 MM de sacas de café e nós – orgulhosos da nossa monocultura – produzíamos 21 MM que representava 75 ca., das nossas exportações fato motivador de muitas e muitas falências antes da quebra de “Wall Street”. Em 1929, a safra chega a 21 MM de sacas e as exportações continuam a cair. A crise americana no período 19 – 24.10.29 com a quebra da Bolsa de Valores de NYC, provocou a falência de milhares de empresas norte-americanas, arruinou a produção agrícola e provocou um brutal desemprego. A depressão econômica nos Estados Unidos repercutiu imediatamente no mercado mundial, levando o capitalismo internacional à maior crise de sua história. O Brasil e São Paulo não poderiam ficar imunes, mercê de nossa fraqueza econômica. A economia brasileira – agrário-exportadora – não podia resistir à retração mundial e a crise econômica se alastrou por todo o país.

E a Tarsila?    

Em 1930, Oswald de Andrade separou-se de Tarsila porque decidiu se casar com a revolucionária Patrícia Galvão, conhecida como Pagú. Tarsila sofreu demais com a separação e com a perda da(s) fazenda(s), o que a levou a entregar-se ainda mais a seu trabalho no mundo artístico. Conseguiu o cargo de conservadora da Pinacoteca do Estado de São Paulo e deu início à organização do catálogo da coleção do primeiro museu de arte paulista. Porém, com o advento da ditadura de Getúlio Vargas e a queda de Júlio Prestes, perdeu o cargo.

Viagem à URSS e fase social

1931-1932: Em 1931, Tarsila vendeu alguns quadros de sua coleção particular para  poder viajar a União Soviética com seu novo marido, o psiquiatra paraibano Dr. Osório César, que a ajudaria a se adaptar às diferentes formas de pensamento político e social. O casal viajou a Moscou, Leningrado, Odessa, Constantinopla, Belgrado e Berlim. Por fim Paris, onde Tarsila sensibilizou-se com os problemas da classe operária.

Sem dinheiro, trabalhou como operária de construção, pintora de paredes e portas. Logo conseguiu o dinheiro necessário para voltar ao Brasil.

1933: No Brasil, por participar de reuniões políticas de esquerda Tarsila é considerada suspeita e é presa, acusada de subversão. Em 1933, a partir do quadro, “Operários”, a artista inicia uma fase de temática mais social, da qual são exemplos as telas, “Operários” e “Segunda Classe”. Em meados dos anos 30, o escritor Luiz Martins, vinte anos mais jovem que Tarsila, torna-se seu companheiro constante, primeiro de pinturas, depois da vida sentimental.

1934: Participou do 1º. Salão Paulista de Belas Artes, separou-se de Osório e se casou com Luiz, com quem viveu até os anos 50.

1940-1950: A partir da década de 40, Tarsila passou a pintar retomando estilos de fases anteriores. Expôs nas 1ª e 2ª Bienais de São Paulo; na primeira (1951) ganhou o “Prêmio Aquisição”. Retrospectiva no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) em 1950, com apresentação de Sérgio Milliet.

1960-1970: É tema de sala especial na Bienal de São Paulo de 1963 e, no ano seguinte, apresenta-se na 32ª Bienal de Veneza.

Em 1965, separada de Luís e vivendo sozinha, foi submetida a uma cirurgia de coluna, já que sentia muitas dores, e um erro médico deixou-a paralítica permanecendo em cadeira de rodas até seus últimos dias.

Em 1966, Tarsila perdeu sua única filha, Dulce, que faleceu de um ataque de diabetes. Nesses tempos difíceis, Tarsila declara, em entrevista, sua aproximação ao espiritismo. A partir daí, passa a vender seus quadros, doando parte do dinheiro obtido a uma instituição administrada por Chico Xavier, de quem se torna amiga. Ele a visitava, quando de passagem por São Paulo e ambos mantiveram correspondência.

Em 1969, com curadoria de Aracy Amaral é apresentada ao público sua Retrospectiva “Tarsila, 50 anos de pintura”, no MAM-RJ e MAC-SP.

Tarsila do Amaral, a artista-símbolo do modernismo brasileiro, faleceu no Hospital da Beneficência Portuguesa, em São Paulo, em 17 de janeiro de 1973 devido a depressão. Foi enterrada no Cemitério da Consolação de vestido branco, conforme seu desejo.

Representações na cultura

Tarsila do Amaral já foi retratada como personagem no cinema e na televisão, interpretada por Esther Góes no filme "Eternamente Pagu" (1987), Eliane Giardini nas minisséries "Um Só Coração" (2004) e "JK" (2006).

A artista também foi tema da peça teatral Tarsila, escrita entre novembro de 2001 e maio de 2002 por Maria Adelaide Amaral. A peça foi encenada em 2003 e publicada em forma de livro em 2004. A personagem-título foi interpretada pela atriz Esther Góes e a peça também tinha Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Anita Malfatti como personagens.

Tarsila do Amaral foi homenageada pela União Astronômica Internacional, que em 20 de novembro de 2008 atribuiu o nome "Amaral" a uma cratera do planeta Mercúrio.

Em 2008, foi lançado o Catálogo Raisonné Tarsila do Amaral, uma catalogação completa das obras da artista em três volumes, em realização da “Base Projetos Culturais”, com patrocínio da Petrobras, numa parceria com a Pinacoteca do Estado de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura e Governo do Estado de São Paulo.

Exposições