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Tunga

Tunga - Sem Título

Sem Título

vidro, imã e fio de ferro
1998
45 x 43 x 40 cm
Tunga - Sem Título Tunga - Sem Título Tunga - Agulha

Tunga (Palmares PE 1952)

Escultor, desenhista, artista performático.

Antonio José de Barros Carvalho e Mello Mourão muda-se para o Rio de Janeiro onde, em 1974, conclui o curso de arquitetura e urbanismo na Universidade Santa Úrsula. É colaborador da revista Malasartes e do jornal A Parte do Fogo. Na década de 1980, realiza conferências no Instituto de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Santa Úrsula e na Universidade Candido Mendes. Recebe o Prêmio Governo do Estado por exposição realizada no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, em 1986. No ano seguinte, realiza o vídeo Nervo de Prata, feito em parceria com Arthur Omar (1948). Em 1990, recebe o Prêmio Brasília de Artes Plásticas e, em 1991, o Prêmio Mário Pedrosa da Associação Brasileira de Críticos de Arte - ABCA pela obra Preliminares do Palíndromo Incesto. Para realizar seu trabalho, investiga áreas do conhecimento como literatura, filosofia, psicanálise, teatro, além de disciplinas das ciências exatas e biológicas.

Comentário Crítico

Filho do escritor Gerardo de Mello Mourão, Tunga conhece o modernismo brasileiro muito cedo. Inicia sua carreira nos primeiros anos da década de 1970. Na época, faz desenhos e esculturas. Traça imagens figurativas com temas ousados, como na série Museu da Masturbação Infantil (1974). Na segunda metade da década, realiza peças tridimensionais e instalações. Utiliza correntes, lâmpadas, fios elétricos e materiais isolantes, como o feltro e a borracha. Os elementos são bem cuidados formalmente e têm desenho elegante. O artista busca relações fortes entre os diferentes materiais. Como na obra do artista alemão Joseph Beuys (1921-1986), a justaposição deles busca modificar o seu sentido simbólico. Nas peças de feltro, feitas entre 1977 e 1980, sugere relações de troca de energia entre as partes da obra. O tecido envolve os fios e circunda uma lâmpada. A comunhão dos dois insinua a criação de uma fonte de energia.

Em 1980, monta a instalação Ao, em que mostra um filme feito em uma seção curva do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro. O trecho se repete, como se a câmera andasse em círculos pelo trajeto, sem encontrar saída e nem entrada. O artista sugere uma estrutura circular no interior de uma rocha, sem comunicação com o espaço exterior. Segundo o crítico de arte Carlos Basualdo, "Tunga declara que o processo de realização desta obra o conduziu para bem longe de suas intenções iniciais, internando-o em uma série talvez tão infinita quanto o próprio túnel de relatos enigmáticos e descobertas quase arqueológicas".1

Depois dessa obra, seguiram-se vários outros trabalhos, em que explora peças com feição de curiosos achados da arqueologia ou das ciências naturais. Em Les Bijoux de Mme. Sade (1983), Tunga constrói um círculo de metal com a forma de um osso. O interesse pela aberração arqueológica é conjugado ao gosto por formas herméticas. Nos anos de 1980, cria outras situações fantásticas, como Vanguarda Viperina (1986) e Xipófagas Capilares Entre Nós (1985). Em ambos, tenta extrair sentidos simbólicos de situações que se desviam da normalidade. Naquele momento, as obras passam a se referir umas às outras. O artista descreve seu trabalho como "um conjunto de trabalhos; onde um sempre leva ao outro, como se entre eles existisse um ímã".2 Este caráter auto-referente é enfatizado no vídeo Nervo de Prata (1987), feito em parceria com Arthur Omar (1948). No filme, as obras repercutem umas nas outras, constituindo um universo à parte.

Segundo Carlos Basualdo, Tunga, em 1989, define seu projeto estético como: "redefinir a escultura já não só como o volume estático, mas também como o agrupamento destas formas em expansão e a relação entre elas".3 Em Lizarte (1989), esse campo de relações entre diferentes materiais é constituído com objetos recorrentes na poética do artista. Reaparecem os cabelos, os tacapes, o ímã e as tranças. Na década de 1990, as relações energéticas entre metais diferentes e a recorrência de figuras de um repertório são cada vez mais freqüentes na obra do artista. A relação violenta entre os ímãs ressurge em Lúcido Nigredo (1999). A partir dessa década, a expansão das peças muitas vezes é conquistada na interação do trabalho tridimensional com as performances, como em Inside Out, Upside Down (Ponta Cabeça) (1994/1997) e Resgate (2001).

Notas
1 BASUALDO, Carlos. Uma vanguarda viperina. In: TUNGA. Tunga: 1977-1997. Miami: Museum of Contemporary Art, 1998. p. 42.
2 citado em ROLNIK, Suely. Instaurações de Mundos. In: TUNGA. Tunga: 1977-1997. Miami: Museum of Contemporary Art, 1998. p. 129.
3 BASUALDO, Carlos. Op. cit. p. 51.

Críticas

"Na Galeria Luisa Strina, o artista expõe sete conjuntos de objetos-esculturas que, a um primeiro olhar, parecem peças de cerâmica. A cor terrosa engana. Ela não é do material, mas do seu acabamento insólito: maquiagem. As peças são fundidas em bronze e cobertas com base, batom e pó compacto. A superfície resultante não se pretende simulacro perfeito da pele: conserva o índice da mão que a plasmou em argila.
Os objetos-esculturas nasceram do desenho de corpos unidos. O artista isolou a linha que define ao mesmo tempo duas pessoas: fronteira e mistura de peles, vasos comunicantes e incomunicados. Metáfora das relações amorosas, essa linha ganhou volume e expandiu-se em duas formas: urna e cálice (ou aberto e fechado, masculino e feminino). Preenchendo o espaço entre elas, um lábio. Está montada a equação visual que, conforme os hábitos de Tunga, ainda se alimentou de inúmeras fontes de pesquisa, entre elas as ciências exatas".
Angélica de Moraes
MORAES, Angélica de. "Tunga expõe metáforas do amor". In: O Estado de S. Paulo, São Paulo, 15 mar. 1994. Caderno 2, p.D1.

"Tunga pertence à geração de artistas brasileiros seguidores de Hélio Oiticica e Lygia Clark. Arquiteto por formação, imerso em literatura (de Nerval a Borges) e em referências filosóficas e científicas (arqueologia, paleontologia, zoologia, medicina), seu trabalho exibe a marca das grandes ficções do continente latino-americano. Freqüentemente lidando com o excesso - muitas de suas obras foram realizadas através do acúmulo de materiais pesados (ferro, cobre, ímã) -, ele apresenta objetos comuns que passaram por uma estranha transformação: dedais, agulhas gigantes ou pentes. Inventa um bestiário fantástico de lagartos e serpentes mutantes que parece saído diretamente de uma antologia surrealista. Jogando com as diferenças de proporções, Tunga considera a escultura como um conjunto de formas e figuras enigmáticas cuja estranheza e proporções fabulosas intrigam o espectador e causam transtorno em sua percepção habitual de próximo e distante, dentro e fora, cheio e vazio. Seu interesse no inconsciente e, particularmente, nos processos associativos das engrenagens do sonho, bem como na figura da metáfora, o levou a construir obras de arte com ramificações e efeitos de significado múltiplos. Estes se entrelaçam com erupções do fantástico, convidando o espectador a penetrar num universo barroco onde não se pode distinguir o real do imaginário".
Paul Sztulman
SZTULMAN, Paul. "Tunga". In: Documenta 10. Kassel: Documenta, 1997. p.226. (Texto traduzido)

"Muitos podem ser os dispositivos disparadores de obras, operadores de contágio e hibridação. Eles servem para dar liga ao conjunto de elementos que constituirão uma mesma obra, ou para juntar e amalgamar várias obras entre si e, nesta combinação, produzir uma outra, inédita. Um deles, talvez o que mais retorna, é a gelatina. Matéria orgânica gosmenta, próxima dos fluidos corporais - baba, meleca, esperma - que lambuza tudo, produzindo um continuum. (...) Outro dispositivo recorrente na fabricação de híbridos: os ímãs. À primeira vista, usá-los para ligar materiais parece óbvio: a vocação dos ímãs é justamente produzir atração entre minérios. No entanto, ao cumprir seu destino no contexto inesperado de uma obra de arte, eles provocam estranhamento. (...)   
Outros inesperados operadores de junção: batom, base e pó compacto maquiam cálices, urnas e 'lábios' e fazem deles um só corpo. Outros ainda: finíssimos fios de toda espécie - de cobre, nylon ou prata - unem os elementos em cena em diferentes obras. 
Por último, um tipo de operador que vale a pena privilegiar: os textos de Tunga que por vezes acompanham seus trabalhos. Narrativas com referências a documentos imaginários - recortes de jornal, relatórios de pesquisa, depoimentos, telegramas, cartas, inscrições arqueológicas, achados paleontológicos, registro de experiências telepáticas etc. - produzem uma impostação pseudocientífica impregnada de mistério e magia que acaba contaminando a obra. Nestes textos, onde ficção se entrelaça com dados objetivos e biográficos, obra e vida tornam-se inseparáveis - a vida se mostra obra, e a obra, cartografia da vida. Como se os novos elos que unem ingredientes incompossíveis para fazer obra, ou várias obras para fazer uma nova, fossem da ordem do necessário e, portanto, passíveis de explicação científica".
Suely Rolnik
ROLNIK, Suely. "Instaurações de Mundos". In: TUNGA. Tunga: 1977-1997. Curadoria Carlos Basualdo. Miami : Museum of Contemporary Art, 1998, p. 115-136.

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