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Waltercio Caldas

Waltercio Caldas - Pedra

Pedra

pastel sobre papel
1987
32 x 44 cm
ass. inf. dir.
Waltercio Caldas - Pedra

Waltércio Caldas (Rio de Janeiro RJ 1946)

Escultor, desenhista, artista gráfico, cenógrafo.

Waltércio Caldas Júnior estudou pintura com Ivan Serpa (1923 - 1973) em 1964, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ. Entre 1969 e 1975, realiza desenhos, objetos e fotografias de caráter conceitual. Na década de 1970, leciona no Instituto Villa-Lobos, no Rio de Janeiro é co-editor da revista Malasartes integra a comissão de Planejamento Cultural do MAM/RJ participa da publicação A Parte do Fogo e publica com Carlos Zilio (1944), Ronaldo Brito (1949) e José Resende (1945) o artigo O Boom, o Pós-Boom, o Dis-Boom, no jornal Opinião. Em 1979, sua produção é analisada no livro Aparelhos, com ensaio de Ronaldo Brito, e, em 1982, no Manual da Ciência Popular, publicado na série Arte Brasileira Contemporânea, pela Funarte. Em 1986, o vídeo Apaga-te Sésamo, de Miguel Rio Branco (1946), enfoca a sua produção. Recebe, em 1993, o Prêmio Mário Pedrosa, da Associação Brasileira de Críticos de Arte - ABCA, por mostra individual realizada no Museu Nacional de Belas Artes - MNBA, no Rio de Janeiro. Em 1996, lança a obra O Livro Velázquez e realiza a mostra individual Anotações 1969/1996, no Paço Imperial, Rio de Janeiro, apresentando pela primeira vez seus cadernos de estudos.

Waltércio Caldas é um artista brasileiro que trabalhou como escultor, desenhista, artista gráfico, gravador, cenógrafo, figurinista.

As obras de Waltercio Caldas provocam um estado de suspensão naqueles que as contemplam. Desmontam a certeza da experiência, pulverizam a acuidade do olhar, deslocam o espectador para uma posição inquietante, onde a percepção visual não se diz como rotineiramente. De fato, não se oferecem como simples alteridades.

São antes o móvel por onde acontece o ataque aos olhos absortos do espectador, o campo de ativação do seu pensamento, de uma relação conflitante deflagrada pelo cálculo preciso e parcimonioso de meios. A limpidez de suas formas, sua elegéncia, contrasta com o inacabamento ou a virtualidade que também sugerem. O olhar os vai adejando cautelosamente para ao final recolher a impressão de que só teve acesso a uma fração apenas.

Aliando uma fina inteligência formal e jogos provocativos e por vezes bem humorados para o olhar, Waltercio Caldas gera interrogações sutis para cada espectador, nos ensinando a ver para além do que hábito nos ensina.

Biografia

Waltercio Caldas nasceu no Rio de Janeiro em 1946. Aos 8 anos visita uma réplica do avião 14 Bis, exposta no saguão do Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, considero pelo artista "o primeiro objeto 'construtivo' que conheci".

No início dos anos 1960, Waltércio Caldas se interessa pela arte e passa a freqüentar exposições no Rio de Janeiro. Estuda com Ivan Serpa, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ, a partir de 1964.

O dia-a-dia das aulas e as visitas ao acervo do museu o aproximam da produção moderna e contemporânea.

Ver obras de arte estimula no artista o desejo de responder àquilo que via. Segundo declara, começa a ser "artista", sendo público. A produção alheia desperta a vontade do diálogo.

Em 1965 realiza seu primeiro trabalho gráfico: a capa do livro A Amazônia e a cobiça internacional, de Arthur Cezar Ferreira Reis, para a Editora Edinova, Rio de Janeiro.

Em 1967, começa a trabalhar como desenhista técnico e diagramador da Eletrobrás e participa de sua primeira exposição coletiva profissional, na Galeria Gead. Na época desenha e faz maquetes de projetos arquitetônicos improváveis.

Em 1969, realiza os Condutores de Percepção, trabalho que é chave em sua carreira. Com ele, inicia uma série de obras feitas a partir da inserção de objetos rotineiros em estojos bem-cuidados com uma plaqueta onde se lê o nome do trabalho, elemento definidor da obra. Esses trabalhos são montados na sua primeira individual, no MAM/RJ, em 1973, com ótima repercussão. Segundo o crítico de arte Ronaldo Brito, as obras expostas são "muito menos objeto de contemplação do que uma forma ativa de veicular um pensamento, de produzir uma crise nos hábitos mentais do espectador".

No ano de 1970 Waltercio realiza cenários para a peça A lição. de Eugène Ionesco, dirigida por Ronaldo Tapajós e montada no Conservatório Nacional do Teatro do Rio de Janeiro, constituindo seu primeiro trabalho de caráter público. Em 1967, já havia notado as cenografias de Svoboda na Bienal Internacional de São Paulo.

Em 1971 participa pela primeira vez de um salão de arte - Salão de Verão, no MAM, Rio de Janeiro - onde exibe três objetos-caixas. Ocorre nesse momento o primeiro contato com o colecionador Gilberto Chateaubriand, que adquire as peças da exposição.

Entre 1971 e 1972 a convite do músico Reginaldo de Carvalho, diretor do Instituto Villa-Lobos, leciona ali o curso de Arte e Percepção Visual.

Em 1973 Caldas faz a primeira individual no MAM, Rio de Janeiro, com 21 desenhos e 13 objetos-caixas. A exposição obtém excelente resposta de crítica, do público e do mercado, Com ela, o artista ganha, juntamente com Alfredo Volpi, o Prêmio Anual de Viagem da Associação Brasileira de Críticos de Arte. O crítico Ronaldo Brito escreveu o seu primeiro texto sobre a obra de Waltercio Caldas - "Racional e absurdo" - a propósito dessa exposição, publicado no jornal Opinião, e marca o início da relação entre o artista e o crítico. No texto, Ronaldo Brito comenta:

O que lhe interessa é a produção de um clic que provoque no espectador um momento de desorientação psíquica. A arte, dessa maneira, é muito menos objeto de contemplação do que uma forma ativa de veicular um pensamento, de produzir uma crise nos hábitos mentais do espectador. Num momento em que ver arte parece sobretudo um requintado compromisso social, a exposição de Waltercio Caldas tem o valor de um desmentido: que a arte não é apenas para ser olhada, mas para se pensar a respeito.

Em 1975 o artista é convidado por Pietro Maria Bardi a participar do "Expo Bruxelas", na Bélgica, junto com o artista Alvim Correa (brasileiro, ilustrador da primeira edição do romance A guerra dos mundos, de H. G. Wells, de 1906, um dos pioneiros da literatura de ficção científica). O evento não acontece, mas Bardi convida o artista para se apresentar no Museu de Arte de São Paulo - MASP, do qual era diretor.

Faz então primeira individual na cidade de São Paulo com o título "A Natureza dos Objetos", no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp. Traz 100 obras, entre desenhos, objetos e fotografias.

Em 1978 um ano rico de realizações, quando o artista produz inúmeros trabalhos, como Talco sobre livro ilustrado de Henri Matisse, Convite ao raciocínio, Aparelho de arte, Prato comum com elásticos, Tubo de ferro / Copo de leite e A experiência Mondrian. É também o ano em que Waltercio Caldas a preparar Aparelhos, primeiro livro sobre o conjunto de sua obra.

Realiza esculturas, como Convite ao Raciocínio e Objeto de Aço. Nessa época, cria obras que comentam trabalhos de nomes consagrados da história da arte. Realiza a Experiência Mondrian e Talco sobre Livro Ilustrado de Henri Matisse. Este último trabalho dá inicio a outras obras feitas com base em livros, como Aparelhos (1979), Manual de Ciência Popular (1982) e Velázquez (1996).

O Livro Aparelhos é publicado pela GBM Editora de Arte, Rio de Janeiro em 1979, com ensaio de Ronaldo Brito. O livro apresenta uma seleção de trabalhos realizados entre 1967 e 1978. Com características editoriais diferenciadas, incluindo trabalhos inéditos, feitos exclusivamente para contextos gráficos, entre eles Como funciona a máquina fotográfica de 1977, o livro teve programação visual do artista e de Paulo Venancio Filho. Na capa o trabalho Dado no gelo. Na abertura do ensaio, de título "Os limites da arte e a arte dos limites", Ronaldo Brito declara:

O trabalho está preso aos limites da arte, a sua exigência é de, ali, situar-se nos extremos máximos. Mais do que consciência, o trabalho tem a obsessão dos limites. Respira essa tensão e extrai força dessa ambigüidade. O que é arte, o que não é, quando é e quando deixa de ser, como pode sê-lo e como pode não sê-lo, são essas questões. Mas ele não as coloca diretamente porque isso equivaleria a negá-las, escapar de sua pressão contínua, definir-se como consciência que interroga e responde. O trabalho vibra nessas questões, estas são o seu meio ambiente: só ali produz sentido, organiza e agita sentidos. O seu espaço é portanto a iminência do vazio, os limites, o que está entre, as linhas que existem como processo de demarcação de regiões diferentes. É sobre essas linhas que atua, captando a tensão circundante. E o trabalho não é senão essas linhas.

Sobre o livro, o crítico Rodrigo Naves acrescentou, em texto de agosto de 1979, no jornal Leia Livros:

Este livro de Waltercio Caldas Jr. e Ronaldo Brito (texto) é uma obra com desejo de si. Tentemos então abri-lo de uma nova maneira. Penetrá-lo e percorrê-lo de modo como ele se desdobra. Depois de tentar várias alternativas, só me restou uma: atravessar este livro com um furo e ter algum contato com esta superfície circular que estaria sendo criada interiormente à espessura de papel. Coincidentemente ou não, é bem este o movimento deste trabalho. Todavia concomitante ao buraco deve haver a memória da resistência oferecida pelo material que foi perfurado, pois a sua reação ao corte é condição para a delimitação deste perfil de papel. O nada que vai ser criado rescende à espessura atravessada. E esta espessura, no caso, são as linguagens e o circuito da arte.

E, ainda sobre o livro, escreve Zulmira Ribeiro Tavares, em seu texto "Ironia e sentido"

Waltércio Caldas e Cildo Meireles
Mais do que em outros livros que difundem o visual, nesse o próprio projeto gráfico resulta em uma montagem fortemente estruturada. Os seus elementos são parte de uma diagramação/produção, ou seja: de uma diagramação que condiciona a percepção a se dirigir a um sobre-suporte-material unificado: o próprio livro. Volumes, superfícies, cores, figurações perdem parte de sua condição original e ganham outra, a partir do espaço gráfico. Cria-se portanto, a partir do livro, realmente um novo espaço, quase com características cênicas. Transmite ele por meio das reproduções uma forte impressão de instante retido e privilegiado, exatamente como se dá em um palco, no caso um palco povoado não por seres, mas por objetos em situações programadas (revista Módulo, nº 61, novembro de 1980).

A partir da década de 1980, o artista cria maior número de instalações. Em 1980, realiza Ping Pong, e 0 É Um. Três anos depois expõe A Velocidade, na 17ª Bienal Internacional de São Paulo. Ao mesmo tempo trabalha em uma série de esculturas. E se dedica, basicamente, a essa modalidade na segunda metade da década. Faz vídeos, desenhos e intervenções quase invisíveis no espaço mas sua atividade primordial é a escultura.
No ano de 1985 Caldas muda-se para Nova Iorque, onde vive por um ano. Nesse período, trabalha em projetos e elabora a obra Escultura para todos os materiais não-transparentes, que se multiplica em diversos pares de semi-esferas, diferentes tamanhos e materiais (madeira, granito, mármore etc.), trabalho de uma constante expansão, que se funde com o ar. Integra, neste mesmo ano, o "Panorama de arte atual brasileira - Formas tridimensionais", no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Em 1986 o vídeo Apaga-te Sésamo, com direção e fotografia de Miguel do Rio Branco, é realizado sobre uma seleção da obra. Com produção do Studio Line / Rio Arte, o vídeo, com onze minutos de duração, ganhou o prêmio de melhor vídeo e direção do Festival de Cinema e Vídeo do Maranhão, Embrafilme, no mesmo ano. No folder de lançamento do vídeo, o artista escreve:

Vídeo é o nome dado a um sinal eletrônico. Os objetos e as esculturas gravadas nesse sistema apresentam-se mais como imagens do que como coisas. Na verdade, quase acredito nessas "coisas transparentes" como se fosse próximas. É que o óbvio, às vezes, é falso.

Em 1989, instala a sua primeira escultura pública: O Jardim Instantâneo no Parque do Carmo, em São Paulo e cinco anos depois produz outra peça em espaço aberto: Omkring, na Noruega.

Em 1993 realiza a exposição individual "O ar mais próximo", no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de janeiro. A enorme galeria do museu foi ocupada com finas, rarefeitas e sinuosas linhas de lã coloridas que pendiam do teto, formando pequenos e configurando, talvez, a exposição mais radical do artista na questão dos limites entre o visível e o invisível, questão recorrente de uma obra que repropõe o "ar" como "corpo". Aqui, Waltercio radicaliza igualmente a improbabilidade fotográfica de suas peças, que se esquivam, desta vez mais ainda, da reprodução. A exposição recebe o prêmio de melhor do ano no país, Prêmio Mário Pedrosa, conferido pela Associação de Críticos de Arte.

Em 1996, realiza o monumento Escultura para o Rio, no centro do Rio de Janeiro, onde se evidencia uma síntese de seu trabalho: a sutileza conceitual que sempre o caracterizou, aliada a uma capacidade de mobilização de espaço público. Ainda em 1996 lança a obra O Livro Velázquez e realiza a mostra individual Anotações 1969/1996, no Paço Imperial, Rio de Janeiro, apresentando pela primeira vez seus cadernos de estudos.

Em 2003 realiza a exposição individual "Waltercio Caldas: desenhos", no Artur Fidalgo Escritório de Arte, Rio de Janeiro. Nas páginas iniciais do catálogo que acompanha a mostra, encontra-se o escrito do próprio artista:

E os olhos, que vão às imagens onde estiverem
E as levam para lá, onde podem sorrir de inexistência.

Críticas

"O trabalho está preso aos limites da arte, a sua exigência é de ali situar-se em extremos. Mais do que a consciência, o trabalho tem a obsessão dos limites. Respira essa tensão e extrai força dessa ambigüidade. O que é arte e o que não é, quando é e quando deixa de ser, como pode sê-lo e como pode não sê-lo, essas são as suas questões. Mas ele não as coloca diretamente porque isso equivaleria a negá-las, escapar de sua pressão contínua, definir-se como consciência que interroga e responde. O trabalho vibra nessas questões, estas são o seu meio ambiente: só ali produz sentido, organiza e agita sentidos. O seu espaço é portanto a iminência do vazio, os limites, o que está entre as linhas que existem enquanto processo de demarcação de regiões diferentes. É sobre essas linhas que atua, captando a tensão circundante. E o trabalho não é senão essas linhas.

Digamos que seja uma espécie de dispositivo perverso. O seu olho, o seu cálculo consistiria precisamente em detectar os graus de ambigüidade e inadequação do objeto de arte, mas, do conceito de arte, ainda mais da instituição arte.
Tudo isso, é claro, sendo um trabalho de arte.
Pode-se imaginá-los em ação: meio soturnamente tirando prazer da desmontagem dos mecanismos que transformam a obra de arte numa aparente totalidade, perfeita em seu círculo, dominando coerentemente a sua circulação. Nesse processo sádico (que seria também um masoquismo) conta sobretudo o poder de desarticular, embaralhar, as várias instâncias que de modo implícito compõem a obra de arte e mascaram a sua constituição problemática. Trata-se, obviamente, de uma operação analítica: desconstrução do solo e das paredes da arte (objeto, conceito, circuito). O prazer do trabalho, o seu thrill, só aparece quando a arte fica em estado de suspensão, quando a arte é posta entre parênteses".
Ronaldo Brito

"A ciência acústica conhece um fenômeno chamado som de combinação, ou terceiro som. Se duas notas de alturas diferentes, mas relativamente próximas, são tocadas simultaneamente, suas freqüências entram em choque e produzem uma terceira nota claramente audível, equivalente à diferença entre elas. Embora tenha sido descoberto no século XVIII, até hoje não se sabe se o terceiro som é uma realidade física ou uma reação neurológica. Por analogia, poderíamos pensar nos trabalhos de Waltercio Caldas como objetos de combinação, ou terceiros objetos. Neles, há grande proximidade e, portanto, choque entre o projeto da obra e sua presença física. O projeto não parece ser anterior ao objeto, não poderia ser destacado dele como uma idéia ou um método construtivo, no entanto, o objeto é tão mediado, tão milimetricamente calculado, que remete necessariamente a um projeto. Os volumes das esculturas de Waltercio são incorpóreos, mentais e, todavia, não conseguimos definir com clareza sua geometria, não poderíamos duplicá-los ou utilizá-los como módulos. As coisas aludem ao espaço, mas não o desenham. Interrogados, seríamos obrigados a responder tautologicamente: 'Este espaço aqui, que estas coisas sugerem". Idéia e corpo não ocupam, assim, dois lugares separados, um no pensamento, outro no espaço eles superpõem-se, parecem gerar um ao outro simultaneamente. Como duas oscilações próximas, mas diferentes, que entram em fase, pensamentos e matéria criam assim uma perturbação, uma vibração secundária, que não pode ser reconduzida a nem uma nem outra freqüência principal, embora seja, com toda evidência, um reflexo delas. A substância do trabalho de Waltercio está justamente nessa vibração, algo que não é corpo nem idéia, algo que não enxergamos na obra, mas que podemos intuir por meio de ou graças a ela. Onde está a obra, nesse caso? Não apostaríamos em sua realidade física, tampouco em seu caráter de mera ilusão dos sentidos".
Lorenzo Mammì

"Suas esculturas em madeira, vidro, álcool e metal atestam o rigor formal sempre presente em sua produção e, ao mesmo tempo, a mordacidade com que quase sempre se posicionou em relação à arte e seu circuito. Observando suas obras, o visitante perceberá que Caldas atualmente mergulha na subversão de certos pressupostos da tradição construtiva. Suas esculturas interrogam os rigores da geometria aplicados à escultura, criticam a participação física do público na apreciação da obra (as peças em vidro, se tocadas, podem simplesmente espatifar) e, quando se aproximam do design - uma das utopias construtivas -, desestruturam seu conceito de funcionalidade. Caldas descarrega sobre a tradição construtiva uma ironia e uma consciência crítica que há anos não se via com tanta intensidade. A razão para essa lacuna agora recuperada talvez esteja na própria trajetória do artista. Em 1979, sua produção ganhou notoriedade com a publicação do livro Aparelhos. Ali, o crítico Ronaldo Brito, analisando a obra do artista, pontua uma possibilidade outra de fazer arte contemporânea no Brasil, aparentemente muito distante daquela pregada pela nova objetividade brasileira, tendência onde pontificara Hélio Oiticica nos anos 60/70.

Metaforicamente, o livro anunciava a morte de Oiticica no ano seguinte e, com ela, o esfacelamento daquela arte de fundamentação romântica, ingenuamente em busca do rompimento das barreiras entre arte e vida, artista e espectador. A produção de Caldas na época - objetos de derivação dadaísta e surrealista, filtrados pela arte conceitual - tripudiava sobre esse romantismo libertário.

Caldas nos anos 80 passará por uma inversão circunstancial, parece: de artista muito preocupado com o discurso sobre arte, ele tentará converter-se em escultor, sondando e aprofundando a cada obra o discurso da escultura moderna. É o momento em que sua produção tende a perder a corrosão crítica e aproximar-se de um formalismo sem saída".
Tadeu Chiarelli

"O movimento da obra de Waltercio na esfera da história da arte brasileira pós-construtiva, incorporando a contribuição neoconcreta e rediscutindo seus axiomas e postulados através de um diálogo conceitual, já é uma das faces reconhecidas por todos que acompanham o desenvolvimento desse trabalho há mais de duas décadas. Além da interrogação cognitiva do conceito, o conhecimento desse trabalho traz uma dimensão existencial.
No projeto de expandir o campo do olhar explorando uma inteligência puramente óptica - a arte de Waltercio raramente traz qualquer retórica embutida - existe sempre um resíduo cético, em que a interrogação se apresenta com uma novidade: a dúvida feliz. Pervertendo a lógica positiva que sustenta a racionalidade mundana e seu elogio mesquinho do que se convencionou chamar de ´resultados´, esses exercícios insistem em contrariar o senso comum. Negando o culto da imagem e a falsa generosidade desse universo farto de figuras e pobre em raciocínio, as esculturas de Waltercio trazem na sua ascese uma sutil dose de humor da qual deriva o prazer. Essa dimensão existencial se realiza num processo em cadeia, em sucessivos enigmas para a retina, na promessa de que, se não cessarmos de usar a inteligência, é possível conviver com o real, apesar de sua brutalidade e aparência absurda".
Paulo Sérgio Duarte

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