29 de Set de 2026 à 29 de Out de 2029

Tudo Aquilo Que Move

Tudo Aquilo Que Move

TUDO AQUILO QUE MOVE

Há algo que antecede a forma: um impulso silencioso que faz crescer, respirar, expandir, transformar. Antes de qualquer permanência, existe o movimento. A vida manifesta-se menos como um estado do que como um processo contínuo de alteração, no qual cada organismo, cada matéria e cada gesto carregam em si a potência da mudança. Como escreveu o filósofo Henri Bergson, a vida é cinesia e não pode ser compreendida como um a sucessão de estados fixos, mas, sim, como um fluxo criador que jamais se repete exatamente da mesma maneira. É nessa dimensão do devir, em que nascer, crescer, decompor-se e renovar-se pertencem ao mesmo ciclo, que se inscreve a exposição “Tudo aquilo que move”, em cartaz na Galeria Frente. A exposição reúne dez artistas cujas pesquisas revelam que toda forma nasce de forças invisíveis que atravessam a matéria. Nas obras, a organicidade revela-se nas formulações que se expandem, nas estruturas que evocam corpos celulares, nos ritmos que compõem a natureza e na potência que conecta matéria e espaço. Cada trabalho evidencia que viver é estar em permanente deslocamento, transfigurando-se em inúmeras camadas que fazem da variabilidade a própria condição da existência.

Nas obras de Diana Motta, tornam-se visíveis forças que normalmente escapam ao olhar. Suas pinturas sugerem correntes de energia, formações orgânicas que dissolvem as fronteiras entre corpo e natureza, matéria e atmosfera. Cada tela nasce de uma elaboração irrepetível, em que a tinta acompanha seus próprios ritmos de expansão, sedimentação e encontro. A superfície transforma-se em um campo vivo e rizomático, que faz da obra uma tradução de seu rico universo espiritual para a forma física. Se, em Diana, essas forças atravessam a matéria e tornam porosas as fronteiras entre corpo e natureza, em Efe Godoy elas ganham corpo na própria indistinção entre espécies. Em suas imagens, nenhuma forma permanece íntegra por muito tempo; tudo parece atravessar um estado contínuo de transfiguração, no qual espécies, corpos e paisagens compartilham a mesma matéria sensível. Efe constrói um universo em que o hibridismo não representa uma exceção, mas uma condição natural da existência. Mais do que retratar metamorfoses, sua obra revela que permanecer vivo talvez signifique justamente nunca coincidir inteiramente consigo mesmo.

Já na produção de Fabiana Preti para esta exposição, o movimento se apresenta como acontecimento. Em sua série Chorinho o título evoca a tradição da música popular brasileira, ela aproxima diferentes formas de cadência. As pinceladas, repetidas em variações de cor, densidade e transparência, organizam-se como uma partitura visual, estabelecendo ritmos, pausas e tensões que fazem a superfície vibrar. A pintura torna-se fluxo: desagua em um campo onde o olhar percorre o tempo inscrito, fazendo do movimento a própria matéria da obra. O desaguar também é o verbo que atravessa a produção de Poli Pieratti, não apenas como tema, mas como um modo de pensar e construir a pintura. Em Fundo do mar e Onda I, ambas de 2025, figuras e paisagens parecem submetidas à natureza instável do elemento líquido: contornos se desfazem, linhas avançam pela superfície e formas emergem para logo se transformar novamente. A artista encontra no fluxo uma maneira de dissolver fronteiras. Aqui, mover-se significa também deixar de ser uma coisa para tornar-se Tudo aquilo que move pág. 8 pág. 9 outra: como a própria água, a pintura existe enquanto passagem.

A pesquisa de Giulia Bianchi desloca o olhar para as relações que constituem o mundo vivo. Entre estruturas que evocam folhas, frutos, animais e organismos, suas pinturas recorrem à sinestesia como procedimento, ampliando a experiência da pintura para além da visão, convocando memória, tato, aroma e imaginação. Cada obra convida o espectador a perceber que viver é também corresponder continuamente ao que nos cerca. Essa permeabilidade entre aquilo que vemos e aquilo que experimentamos encontra outra forma nas pinturas de Victoria Serednicki. Se Giulia aproxima diferentes existências em um mesmo campo relacional, Victoria dissolve as fronteiras que organizam a própria paisagem. Em suas telas, céu, terra, água e vegetação surgem por meio de manchas, gestos e campos de cor que parecem continuamente se formar e se desfazer, tornando imprecisos os limites entre um elemento e outro. Em Qual o limite entre o céu e a terra? (2025), essa indeterminação aparece já no título: mais do que representar uma paisagem, interessa à artista perceber aquilo que nela é impermanência.

Nas esculturas de Thamiris Mandú, a terra guarda aquilo que o tempo preserva. A argila deixa de ser apenas matéria para tornar-se arquivo de gestos, ancestralidades e histórias que atravessam o corpo, como sugere o filósofo Gaston Bachelard. Misturando diferentes tipos de barro, a artista investiga pertencimento, deslocamento e memória, fazendo da cerâmica um território onde identidades permanecem em constante elaboração. O fogo, longe de encerrar o percurso, transforma-se em passagem, revelando que toda matéria conserva em si as marcas das forças que a constituíram. É também a partir da capacidade da matéria de se transformar pelo encontro que se desenvolve a pesquisa de Naia Ceschin. Se em Thamiris terra e fogo registram sucessivas transformações, em Naia são os fios, as tintas e seus entrelaçamentos que fazem a forma emergir gradualmente. Fios e tinta coloridos entrelaçam-se em superfícies que crescem diante do olhar, como se cada gesto prolongasse o anterior em um processo contínuo. Entre a tapeçaria e a pintura, a artista constrói paisagens que oscilam entre o microscópico e o geográfico, aproximando estruturas celulares, formas vegetais e memórias da natureza em composições que nunca se estabilizam completamente.

Já para Marysia Portinari, o movimento nasce da relação entre cor, luz e geometria. Dialogando com a tradição do abstracionismo geométrico e aproximando-se das investigações ópticas da Op Art, a artista constrói composições em que a superfície parece pulsar diante do espectador. Linhas, planos e campos cromáticos produzem deslocamentos perceptivos que permitem a pintura oscilar. É justamente o deslocamento do visitante que aproxima sua pesquisa da de Verena Smit. Em ambas, a obra não se oferece de uma só vez: é preciso mover-se para que algo aconteça. Se em Marysia esse movimento altera a percepção de cor, luz e forma, em Verena ele transforma o próprio sentido das palavras. Na série apresentada na exposição, placas lenticulares fazem com que pares de palavras — como Fugir/Agir e Desesperar/ Esperar — alternem-se conforme o deslocamento do olhar. Não existe uma leitura definitiva: cada pequena mudança de posição faz emergir um novo sentido, revelando que entre uma palavra e outra existe um intervalo fértil, onde decisão, tempo e percepção se fundem. A obra torna-se, assim, uma experiência compartilhada.

Em Tudo aquilo que move, diferentes gêneros e suportes artísticos revelam a vida como um campo de relações. Metamorfose, ritmo, fluxo, impermanência, matéria e percepção atravessam essas pesquisas como diferentes manifestações do movimento. Como observa o antropólogo Tim Ingold, a vida acontece em um mundo de materiais em formação, onde nada permanece imóvel porque tudo continua em processo. As obras reunidas na exposição convidam o espectador a acompanhar esse fluxo incessante, reconhecendo que cada configuração guarda em si as forças que a fizeram surgir e aquelas que continuam, silenciosamente, a transformá-la.

Artistas participantes:

Diana Motta, Efe Godoy, Fabiana Preti, Giulia Bianchi, Marysia Portinari, Naia Ceschin, Poli Pieratti, Thamiris Mandú, Verena Smit, Victoria Serednicki.

Curadora: Ana Carolina Ralston

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