26 de Ago à 30 de Ago de 2026

ROTAS SP-ARTE 2026

Arcangelo Ianelli: A paisagem depois da paisagem

Há artistas que atravessam o século XX brasileiro mudando de linguagem a cada década; há outros, mais raros, que atravessam o século aprofundando uma única pergunta. Arcangelo Ianelli (Piracicaba, 1922 – São Paulo, 2009) pertence a esta segunda espécie. Sua obra, vista em conjunto, não é uma sucessão de estilos, mas a lenta decantação de um mesmo problema: o que resta da paisagem quando se retira dela, um a um, os elementos que a tornam reconhecível?

A presente seleção para a Rotas Brasileiras permite acompanhar esse percurso quase como se folheássemos o caderno de um mesmo pensamento ao longo de décadas. Começamos pela figuração das primeiras fases, com telas como Esquina "Gasômetro", Marinha com Barcos e os estudos de praia e de campo, ainda devedores de uma tradição de pintura ao ar livre, atenta à luz difusa do litoral e do subúrbio paulista, mas já contendo, no tratamento das massas de cor e na economia do desenho, o embrião do que viria depois.

É nas composições geométrico-construtivas, com os pares de quadrados em campos neutros, os planos divididos ao meio e o vermelho partido por uma única linha vertical, que Ianelli testa a ruptura com a figura sem abandonar de todo a memória da paisagem: horizonte, terra, céu, ainda que reduzidos a blocos de cor em tensão. É uma abstração que nunca esquece de onde veio.

O núcleo mais denso da mostra, porém, está nas grandes telas monocromáticas, com os azuis profundos, os vermelhos que escurecem até o quase-preto e os ocres que vibram como luz de fim de tarde. Aqui Ianelli alcança sua contribuição mais original à pintura brasileira: campos de cor que não buscam o choque óptico da op art nem o rigor programático do concretismo, mas uma vibração lenta, quase respiratória, obtida por camadas sucessivas de tinta que deixam a superfície pulsar de dentro para fora. Não é por acaso que a crítica o aproxima, por vezes, do rothkiano, mas onde Rothko busca o sublime trágico, Ianelli persegue algo mais sereno: a luz brasileira reduzida à sua essência cromática, sem paisagem, mas ainda paisagem.

Os pastéis sobre papel, de formato pequeno e execução mais imediata, funcionam como o laboratório íntimo desse pensamento. Neles vemos o artista testar, em escala de estudo, as mesmas relações de cor e divisão de plano que depois ganhariam a monumentalidade das telas grandes.

Por fim, as esculturas em mármore, produção mais tardia e menos conhecida do público, revelam que a mesma disciplina de redução se estende à terceira dimensão: formas verticais, quase estelas, que dialogam com a tradição da escultura moderna brasileira e, ao mesmo tempo, com um vocabulário mais antigo, quase arcaico, de coluna e monumento.

Reunidas sob o título Rotas Brasileiras, essas obras traçam menos uma rota geográfica que uma rota interior: o caminho de um pintor que, partindo da observação do mundo visível, chegou a uma linguagem de pura sensação cromática e, ao fazê-lo, ajudou a definir um dos capítulos mais singulares e menos ruidosos da arte brasileira do século XX.

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